segunda-feira, 29 de outubro de 2007

CARA DE UM, FUCINHO DE OUTRO

Quando se olha a capa de uma revista na qual está estampada a face do Presidente da Venezuela, Hugo Chavez, e alinhada à esquerda a pergunta em caixa alta "O Brasil deve ter medo dele?", com uma palavra abaixo da outra (padrão estético de capas de revistas brasileiras), automaticamente vem à mente a certeza de ser mais um panfleto da direita, através da revista Veja, contra o presidente venezuelano. Porém, os olhos ainda não verificaram e olhando-se mais acima constata-se: plágio estético da revista Época. Não o bastante, o plágio à revista Veja na estética do índice não é difícil de se observar.

Trata-se da revista de nº 493 de 29 de outubro de 2007. Ainda na apresentação da reportagem de capa, a revista Época, por meio dos signatários da matéria (Guilherme Evelin, Isabel Clemente e Matheus Leitão) indica que tentará explicar "Por que o crescente poderio bélico de Hugo Chavez é uma ameaça à liderança brasileira" e "Como o governo Lula está planejando o maior investimento militar desde a ditadura".

A reportagem começa apresentando uma constatação de um instituto sueco que aponta a América Latina como a zona mais desmilitarizada do planeta. Porém, também teria-se constatado a mudança desse quadro há dois anos com a intenção do presidente Hugo Chavez em aumentar seu poderio bélico para solidificar sua liderança frente à América Latina e, em contrapartida, o governo Lula teria dobrado o investimendo do Brasil na renovação e ampliação dos equipamentos militares para impedir tal liderança. Finalmente, a reportagem assume o linguajar de Guerra-Fria quando enfatiza a compra de aviões e equipamentos militares russos pela Venezuela, pois esses seriam de altíssima precisão.

Como sabemos, a revista Época pertence à Editora Globo, organização da qual também faz parte a rede de TV que leva o mesmo nome. Como podemos ver em Além do Cidadão Kane, o veículo oficial de imprensa da ditadura militar... pasmem! O veículo oficial de imprensa da ditadura militar, critica, através de sua principal revista comercial atual, uma suposta militarização da Venezuela. Conforme as palavras contidas na própria reportagem, uma militarização de iniciativa de alguém "fanfarrão" que possui o "desejo expresso de se perpetuar no poder".

Não há um anseio de imposição ditatorial militar na Venezuela, conforme quer deixar implícito a matéria da revista Época. Desde a chegada de Chavez à presidência, a revolução bolivariana tem mudado os rumos daquele país através da participação popular. Nenhuma atitude é tomada sem um referendo ou uma consulta popular, ao contrário da militarização apoiada pela Globo, no Brasil, de 1.964 a 1.985, que a reportagem não cita na cronologia dos conflitos armados participados pelas Forças Armadas.

Ainda referindo-se a datas, no dia 14 de abril de 2.002 Chavez foi reconduzido ao poder após sofrer uma tentativa de golpe por parte da mídia venezuelana patrocinada pelos EUA, mesmo país onde vários golpistas fracassados tiveram asilo político concedido. O que não pode acontecer é a revolução bolivariana, sabendo que seus interesses internos por serem opostos aos dos EUA podem desencadear uma reação militar ianque, não se reforçar militarmente no caso de uma possível invasão, ainda mais levando-se em conta o poderio bélico dos EUA.

A reportagem também deixa claro o espírito de competição deflagrado pelos porta-vozes da direita brasileira quando se trata de relações internacionais. O sociólogo brasileiro Florestan Fernandes reconhecia os avanços contidos na Constituição Federal de 1.988, ainda que sua visão marxista de mundo fosse contrária a muitos princípios ali elencados. No § Único do art. 4º da CF, está escrito que "A República Federativa do Brasil buscará a integração econômica, política, social e cultural dos povos da América Latina, visando a formação de uma comunidade latino-americana de nações".

Não há competição entre o Brasil e a Venezuela pela liderança da América Latina e tanto Chavez quanto Lula já deixaram bem claro isso. Entretanto, os defensores da política de relações internacionais da ditadura militar e do governo FHC só reconhecem integração latino-americana desde que o Brasil se coloque na posição de imperialista regional e aproveitam para deflagrarem o ódio entre os povos da América Latina. Para eles, o Brasil deveria ter interferido no processo revolucionário venezuelano conforme queria a Secretária de Estado dos EUA, Condolezza Rice, assim como deveria ter interferido militarmente na Bolívia quando da nacionalização do gás, por Evo Morales.

A reportagem estimula o leitor a pensar haver uma disputada desenfrada pela liderança latino-americana entre Brasil e Venezuela supondo que Chavez tenha instigado Evo Morales a nacionalizar o gás boliviano e prejudicar os interesses da Petrobras. Mentira! A nacionalização do gás boliviano é uma reivindicação antiga dos indígenas bolivianos. Também não admitem os esforços da diplomacia internacional brasileira em colocar a Venezuela como membro do Mercosul com direito a voz e voto.

De quem o Brasil deve ter medo? O Brasil não é somente uma porção territorial com límites geográficos e leis que regulam a relação do indivíduo com o Estado. O Brasil é um povo que, guardadas as devidas proporções e realidades distintas, possui uma história semelhante a dos povos latino-americanos, que passa pela descoberta marítima, pela exploração colonial, pelo regime escravocrata ao longo de séculos, pela cristianização indígena, pelo uso do Estado para a garantia dos interesses privados de uma minoria e, recentemente, pelas ditaduras militares patrocinadas pelos EUA no continente e pela minimização do Estado impulsionada pelo neoliberalismo pós-Guerra Fria. Não devemos ter medo de alguém e sim sempre estarmos de olhos bem abertos àqueles que usam dos meios de comunicação para plantarem entre os oprimidos a discórdia, com o intuito de homogenizarem o discurso ianque e manterem para sempre entre povos irmãos a competição imbecil que nunca nos levou a lugar algum.

Lucas Rafael Chianello, além da grande mídia.

segunda-feira, 22 de outubro de 2007

CONCLUSÕES DIFERENTES SOBRE A MESMA PRÁTICA

Domingo, 21/10/2007, 19:00h, estava eu aproveitando as últimas horas fora da indústria cultural, reunindo forças para voltar a ela no dia seguinte. Detalhe: estava defronte meu computador com alguns amigos comentando, através de um programa de conversa instantânea, a 32ª rodada do campeonato brasileiro de futebol e ouvindo pelo rádio, via rede mundial de computadores, Flamengo x Grêmio. Não torço por algum dos dois times mas simpatizo com um narrador do futebol carioca na hora do gol. Também não perdi a oportunidade de comentar com meus amigos a "amarelada" do Lewis Hamilton no GP Brasil de F-1.
Numa dessas conversas, um leitor assíduo do conteúdo virtual da Folha de S. Paulo deixa-me um link na janela de nossa conversa uma reportagem deste jornal reportando que o Presidente em exercício do Senado, Tião Viana (PT-AC), rejeitou a sexta representação contra Renan Calheiros (PMDB-AL) por acreditar na cassação dele em uma das outras representações em trâmite, além de ter rejeitado a representação contra Eduardo Azeredo (PSDB-MG) em troca de apoio a aprovação da prorrogação da CPMF (Contribuição Provisória sobre Movimentação Financeira).
Vide link:
Logo após ler a matéria, vejo o título de uma outra que reportava a intenção do Presidente do Conselho de Ética do Senado, Leomar Quintanilha (PMDB-TO) arquivar a representação feita contra Eduardo Azeredo.
Vide link:
O que faço? Copio e colo o link da reportagem na janela da minha conversa com o leitor assíduo da FSP.
Não sei se o leitor assíduo da FSP, que sempre joga na minha cara a raiva burguesa que ele tem do PT tomando como verdade absoluta tudo aquilo reportado pela FSP, percebeu o que eu quis dizer.
É preciso saber que Leomar Quintanilha foi membro da ARENA (Aliança Renovadora Nacional), partido oficial dos favoráveis à ditadura militar no Brasil de 1.964 a 1.985. Fica claro que Quintanilha usa argumentos para poupar Azeredo ao declarar existir uma jurisprudência no Conselho de Ética orientando que denúncias não podem apurar fatos ocorridos antes da posse de qualquer parlamentar. Ora, se esse é o procedimento a ser tomado então há aí uma lacuna: vários parlamentares foram investigados e absolvidos durante o escâdalo do "mensalão" por supostamente terem usado da mesma prática que Azeredo para se elegerem, o "Valerioduto", agora também apelidado de "Tucanoduto". Se vários desses parlamentares foram representados e investigados por isso, por que Azeredo será poupado? Na mesma matéria, o Senador Arthur Virgílio (PSDB-AM), que já confessou ter usado do caixa-dois para financiar campanhas eleitorais, disse que não há necessidade de representação contra Azeredo porque o Ministério Público Federal já estava cuidando do caso. Ora! Se José Dirceu foi cassado e denunciado no Supremo Tribunal Federal, por que o Azeredo só responderá pelo "Tucanoduto" no MPF? Representação nele, sim!
A FSP, na qualidade de reforço midiático da direita brasileira engrossa o côro junto a Quintanilha para evitar o desgaste da imagem política de um oposicionista a um governo que ela também se opõe. Tivesse ela adotada a mesma postura quando Roberto Jefferson (PTB-RJ) foi cassado por não provar suas denúncias do mensalão que nem ela e nem a CPI da Compra de Votos conseguiram provar, o escândalo desse fato inexistente e não provado teria uma dimensão muito menor, pois um dos mais lidos jornais do país não teria usado de sua atribuição para alimentar tal escândalo. O fez porque é oposicionista e viu na alimentação de tal escâdalo a oportunidade de "matar dois coelhos numa cajadada só": derrubar um governo eleito democraticamente através da tentativa de, adepta do jornalismo mercadológico, vender um escândalo impresso em folhas de jornal. Em outras palavras, não se noticia a verdade mas sim aquilo que se vende.
Também fica claro que a FSP mais uma vez tenta camuflar a realidade. Ela se dá ao luxo de simplesmente dizer que Azeredo não pode ser representado por questões jurisprudenciais para esconder quem de fato carrega os adjetivos usados por ela e pela direita brasileira quando do escândalo do fato inexistente e não provado.
Em meio a essa demonstração de interesses políticos do meio de comunicação em evidência neste artigo e outros anteriormente citados neste blog, só nos resta recordar e pôr em prática a frase do célebre pensador italiano Antonio Gramsci: "Operários, não escutai os meios de comunicação".
Lucas Rafael Chianello, além da grande mídia.

quarta-feira, 3 de outubro de 2007

DIOGO SCHELP E VEJA – ASSASSINOS DO JORNALISMO ÉTICO

A matéria de capa desta semana do semanário Veja superou os limites. A agressividade, a histeria e o panfletarismo são típicos das publicações da Abril e do jornalista que assinou o artigo sobre os 40 anos da morte de Che Guevara.
Desta vez, porém, os vícios habituais da editora não foram suficientes para a produção do texto. Para redigi-lo, recorreram a manipulações factuais, distorções históricas e mentiras escancaradas. O intuito evidente era enxovalhar a memória do Comandante Ernesto Guevara e seguir a obsessiva toada, já cansativa, sobre os supostos desacertos da Revolução Cubana.
Contestamos aqui apenas alguns pontos da reportagem, com o perdão da má palavra. Aqueles que, em nosso ponto de vista, não poderiam ficar sem resposta. Veja, embora tente, não será jamais dona da verdade.




“Veja conversou com historiadores, biógrafos, antigos companheiros de Che na guerrilha(...) Por isso, apesar do rancor que PODE apimentar suas lembranças, os exilados cubanos SÃO VOZES DE MAIOR CREDIBILIDADE".

Ou seja, está dada a desculpa para o amontoado de parcialidades e acusações rasteiras que surgem ao longo do texto. Vejamos algumas fontes da revista:

Napoleón Vilaboa, exilado em MIAMI, que ganhou dinheiro explorando a saída de cubanos pelo porto de Mariel, em 1980, no rastro de um acordo firmado entre Cuba e Estados Unidos;
Pedro Corzo, do Instituto de Memória Histórica Cubana, sediado em, pasmem, MIAMI! É tão arraigadamente estadunidense que, em seu e-mail de contato, nega até seu nome latino para adotar petercorzo@msn.com;
Jaime Suchlicki, historiador cubano, da Universidade de MIAMI, é claro;
Hubert Mattos, exilado em MIAMI, ex-comandante do exército rebelde, condenado a 20 anos em Cuba por traição. Não se sabe por que razões o tirânico regime deixou-o emigrar para os EUA. Segundo a lógica do doentio jornalista, o destino mais certeiro para Mattos deveria ser a morte.

Como se vê, não foram ouvidos cubanos residentes na ilha. O argumento de Veja? Com a repressão em Cuba, eles não sairiam da ladainha oficial. Para Veja, não há pensamento próprio na ilha, apenas fantoches que reproduzem discursos oficiais. Visão mais tacanha é impossível. Os cubanos de Miami são lúcidos e parciais. Já os da ilha são teleguiados pelo aparelho repressivo. Então tá.
Sugerimos a Schelp e a seus patrões um passeio de uma semana por Havana. Veja talvez tenha receio de visitar Cuba e descobrir que a ilha não é nada do que sustenta a revista em sua cruzada doentia contra a Revolução. E, para desespero maior de seus algozes ideológicos, está em absoluta normalidade desde o afastamento de Fidel Castro do poder, há 14 meses.
Sim, espera-se um dia a morte do líder, inegavelmente debilitado e já com 81 anos. Mas supor que sua desaparição física eliminará a revolução é um exercício de futurologia típico da revista e do jornalista. Ou, pior, um desejo indisfarçável de Diogo Schelp, a pena de aluguel mais furibunda a serviço dos controladores da Abril.

Prossigamos.

"Centenas de homens que ele (Che) fuzilou em Cuba tiveram sua sorte selada em ritos sumários que não passavam de dez minutos".

Quais? Que homens? Qual a fonte de Schelp?
Uma das primeiras decisões do novo governo rebelde, e isso é fato, foi a criação de juízos revolucionários como parte de um processo conhecido como Comissão Depuradora. Todos aqueles apontados como criminosos de guerra ou associados ao regime de Batista foram levados a julgamento. Entre janeiro e abril de 1959, aproximadamente mil colaboradores do antigo regime foram denunciados e julgados por meio dos tribunais revolucionários. Cerca de 550 deles foram condenados à pena de morte.
Ernesto Guevara, na condição de comandante de La Cabaña durante os primeiros meses da Revolução, teve sob seu comando os julgamentos e as execuções das penas daqueles que estavam detidos na fortaleza. Para disciplinar os juízos, estabeleceu um sistema judicial com tribunais de primeira instância e um tribunal de apelações. As audiências eram públicas e se desenvolviam como em um tribunal qualquer, com promotores de acusação, advogados de defesa e depoimentos de testemunhas, tanto arroladas pela acusação como pelos réus. A biografia de Jon Lee Anderson, citada, mas não lida por Schelp, a julgar pelo conteúdo de seu texto, mostra isso com nitidez.
As críticas dirigidas a Cuba por conta das sentenças de morte, à luz dos acontecimentos de então, são mais ideológicas do que movidas por razões humanitárias. Tratava-se de um período pós-guerra, com o país convulsionado e que, ademais, convivia com a possível reação das forças que desejavam a volta de Batista ao poder, minoritárias entre a população, mas poderosas economicamente.
Os principais algozes de Cuba, os Estados Unidos e seus aliados da Europa, vencedores da 2ª Guerra Mundial, não julgaram os criminosos nazistas de modo distinto daquele que foi adotado na Cuba revolucionária. Nem por isso houve insinuações de parcialidade contra o tribunal de Nuremberg ou o clamor mundial para que algum acusado deixasse de ser executado.
Entre os condenados aos fuzilamentos em La Cabaña figuravam notórios assassinos, torturadores das forças de Batista e outros criminosos que haviam enriquecido às custas de corrupção e da exploração da miséria da maioria da população cubana.


“Houve um golpe comunista dentro da revolução.”

Em que data isso aconteceu? O jornalista, um obstinado porta-voz da direita reacionária, é tão tresloucado em seus ataques sistemáticos à Revolução Cubana, que deve ter misturado períodos históricos. Houve um golpe de estado comunista na Revolução Russa, em 1917, quando os bolcheviques assumiram o controle do Estado e deram início a criação da União Soviética. Em Cuba, não. Fidel Castro sempre foi o líder máximo da Revolução, desde 26 de julho de 1953, quando atacou o quartel de Moncada, até tomar o poder, com amplo apoio popular (ignorado pela revista), em 1º de janeiro de 1959.

"Na versão mitológica, Che era dono de talento militar excepcional".

Não é verdade. Nem o próprio Guevara acreditava nisso. Um exemplo está em seu diário de campanha da guerra no Congo. Ele começa o livro com a frase "Esta é a história de um fracasso". Além do mais, tendo ou não talento militar excepcional, foi a Batalha de Santa Clara, em dezembro de 1958, comandada e vencida por Guevara, que desencadeou a queda de Fulgêncio Batista. Santa Clara era a última grande cidade antes de Havana e também a última esperança do regime em conter o avanço rebelde.

"Em seis meses de comando em La Cabaña, duas centenas de desafetos foram fuzilados".

Mais uma mentira. Na verdade, foram cerca de 550 condenados à morte e não eram "desafetos" ou apenas "gente incômoda", como diz Veja. Eram, principalmente, corruptos e torturadores do antigo regime. A matéria não diz, mas Che proibia tortura e fuzilamentos de soldados feridos ou já rendidos. Isso conta o biógrafo Jon Lee Anderson, utilizado por Schelp como escora para dar algum peso a seu texto imundo.

"Che descreve como executou Eutímio Guerra, "acusado" de colaborar com os soldados de Batista".

Guerra, segundo descreve a brasileira Claudia Furiati, autora de uma das principais biografias de Fidel, recebeu uma arma do exército e a ordem de executar Castro enquanto este dormia. Não o fez porque sempre havia sentinelas de plantão nos acampamentos rebeldes. A cada deslocamento da guerrilha, porém, a Força Aérea Cubana atacava o local, coincidentemente sempre que Eutímio deixava o acampamento.
Os rebeldes desconfiaram de seu comportamento, interrogaram-no e ele acabou confessando que era agente do exército. Foi julgado, no meio da selva, e condenado à morte, como ocorreria com um traidor em qualquer outra guerrilha do mundo. A justiça guerrilheira nada mais é que uma corte marcial adaptada às circunstâncias do momento. Guerra pediu que os rebeldes, caso triunfassem, educassem seus filhos. Hoje, seus descendentes são oficiais das Forças Armadas Revolucionárias.
Fidel não determinou quem executaria a tarefa de execução do traidor. Che Guevara realmente assumiu a incumbência, fato incontestável e, entre tantas linhas, um dos poucos acertos de Schelp.
Apenas deve se registrar que ele não matou um pobre camponês, mas um homem que pôs a vida de centenas de outros em risco. Por que, segundo a lógica de Schelp, os guerrilheiros podem e devem ser bombardeados por conta de uma delação e correr risco de morte e o responsável pela traição não pode ser executado?

"Ernesto Guevara Lynch de la Serna nasceu em uma família de esquerdistas ricos na Argentina".

Mais uma atrocidade de Schelp, que sequer conhece o nome da vítima de sua caneta. O nome de Che era simplesmente Ernesto Guevara e seus pais não eram ricos nem esquerdistas. Nenhum deles tinha filiação partidária, eram abertamente contra o governo Perón, que seduziu a esquerda argentina com seus projetos voltados aos descamisados, como a primeira-dama Eva Perón costumava se referir aos segmentos mais humildes da população argentina. Ernesto Guevara Lynch e Celia de la Serna, os pais, tampouco eram ricos. Viviam como um típico casal de classe média alta, se tanto. Moraram na Recoleta, o bairro mais elegante de Buenos Aires, quando a avó de Che morreu e lhes deixou como herança um apartamento. Claro que Veja não conta tudo em detalhes. Informar não é função do jornalismo da Abril.

"Para se livrar de Che, Fidel o mandou à Assembléia-Geral da ONU".

Delírio absoluto. Che era o segundo nome do estado cubano, o principal porta-voz da revolução, depois do próprio Fidel. Guevara viajou a inúmeros países e assinou diversos tratados de assistência econômica e militar com outras nações socialistas. Era perfeitamente normal que representasse Cuba em uma Assembléia da ONU.

"Como ministro e embaixador, não conseguiu o que queria".

Texto vago, até impede um comentário mais elaborado sobre algo tão pobre. Registramos apenas que Che NUNCA foi embaixador de Cuba.

"Che propôs a seus comandados lutar até a morte no Congo, mas foi demovido do propósito pela soldadesca".

Mentira deslavada. Che organizou a retirada da tropas cubanas, quando uma das facções congolesas entrou em acordo com o governo que até então combatia. Isso abriu caminho para avanço das tropas mercenárias financiadas por conglomerados mineradores da África do Sul, lideradas por Mike Hoare.
Diante do iminente massacre, Che ORDENOU a retirada de todos os cubanos do Congo. Claro, Veja cria sua própria versão da história.
E mais: dois soldados cubanos não conseguiram chegar a tempo ao barco, às margens do lago Tanganica, que os levaria à Tanzânia e ficaram perdidos em território congolês. Che mandou um destacamento da inteligência cubana em busca dos dois, que foram encontrados vivos, quatro meses depois, quase em território ruandês. Comportamento estranhíssimo para um louco sedento de sangue, egoísta e assassino até de seus próprios homens.

"Três fatos ajudaram a consolidar o mito. O primeiro, a morte prematura, que eternizou sua imagem jovem(...) a pinta de galã".

Ridículo. Diogo Schelp deveria procurar ajuda terapêutica. Acreditar que a aparência física de Che Guevara é responsável por sua irreversível entrada na História é algo que Freud pode explicar.

"A decadência física e política de Fidel Castro, desmoralizado pela responsabilidade no isolamento e no atraso econômico que afligem os cubanos, dá uma idéia do que PODERIA ter acontecido com Che".

O jornalista não diz que o isolamento é, essencialmente, fruto do embargo econômico imposto pelos Estados Unidos há quase 50 anos, naquela que talvez seja a maior agressão não militar já sofrida por uma nação em toda a história humana. Quanto à decadência política de Castro, trata-se, mais uma vez, de um desejo de Schelp. Uma viagem a Cuba rapidamente o convenceria do contrário. Fidel é idolatrado pela população, que vive, sim, em um país pobre e com problemas, admitidos até pelo governo cubano. Já a decadência física de Fidel é inevitável. Todos são mortais e não podemos nos esquecer que ele tem 81 anos e se recupera de grave doença. E em relação ao que PODERIA ter acontecido com Che, Pai Schelp de Ogum revela que tem predileção pelas ciências ocultas, pela futurologia. Talvez fizesse melhor em deixar o jornalismo.

"Se houve um ganhador da Guerra Fria, foi Che Guevara".

Raciocínio deplorável. O sujeito é capturado, rendido e assassinado, mas é ganhador. Pela mesma lógica, se alguém ganhou a 2ª Guerra Mundial, foram os judeus. Afinal, há 60 anos se fala em Holocausto e eles conquistaram o direito ao Estado de Israel, não importando o custo de seis milhões de mortes.

“Fidel se desmancha lentamente dentro daquele ridículo agasalho esportivo”.

Tenha calma, Schelp. Segundo a ordem natural das coisas, você terá o imenso prazer de ver Fidel morto. Temos certeza de que até o obituário de Veja já está preparado. Agressivo, virulento, histérico, panfletário, como é de seu estilo.
Você terá seu instante momentâneo de deleite, assim como a máfia cubano-americana de Miami, ávida por retornar à ilha e transformá-la de novo em um grande cassino.
Mas daqui a 50, 60 anos, o mundo continuará relembrando o aniversário da morte de Che Guevara e, infelizmente, para os que acreditam em outra ordem social, outros tantos anos da morte de Fidel Castro.
Quanto a você, terá sido devidamente esquecido e jogado na lata de lixo reservada para os assassinos do jornalismo ético. Ninguém lembrará de sua triste passagem pelo mundo.


São Paulo, 2 de outubro de 2007.

IZQUIERDA UNIDA

Lilian Vaz - Secretária-Geral
Luiz Alberto Costa Ortiz - Secretário de Finanças
Antonio Gabriel Haddad - Secretário de Comunicação
Vera Pasqualetto - Secretária de Organização e Administração
André Furtado - Secretário de Relações Institucionais

DE VOLTA EM DEFINITIVO!

Salve, salve leitores e leitoras do Blog. Em primeiro lugar, esclarece-se que o blog ficou inativo nos últimos três meses devido à falta de tempo do responsável. Vida de alguém que vive o dia inteiro no trabalho e na faculdade. Lembrem-se: COLABORADORES SÃO BEM VINDOS!
Para manter uma regularidade, estaremos agora, em definitivo e sem desculpas, publicando textos todas às segundas feiras, sempre armados de prendedores no nariz e saco de vômito para não nos rendermos às bombas de efeito pseudo-moral da grande mídia. Poderemos também voltar em situações extra-ordinárias, provavelmente em algum escândalo fabricado por já sabemos quem.
Aliás, que tal nos referirmos a esse quem como pequena mídia?
A seguir, a resposta do recém-fundado grupo político Izquierda Unida à matéria da Veja sobre os 40 anos da morte do revolucionário latino-americano Ernesto "Che" Guevara.
Continuemos em combate, pois enquantos alguns estão cansados, nós estamos sempre dispostos a vencer as injustiças!
Boa leitura!