segunda-feira, 29 de outubro de 2007

CARA DE UM, FUCINHO DE OUTRO

Quando se olha a capa de uma revista na qual está estampada a face do Presidente da Venezuela, Hugo Chavez, e alinhada à esquerda a pergunta em caixa alta "O Brasil deve ter medo dele?", com uma palavra abaixo da outra (padrão estético de capas de revistas brasileiras), automaticamente vem à mente a certeza de ser mais um panfleto da direita, através da revista Veja, contra o presidente venezuelano. Porém, os olhos ainda não verificaram e olhando-se mais acima constata-se: plágio estético da revista Época. Não o bastante, o plágio à revista Veja na estética do índice não é difícil de se observar.

Trata-se da revista de nº 493 de 29 de outubro de 2007. Ainda na apresentação da reportagem de capa, a revista Época, por meio dos signatários da matéria (Guilherme Evelin, Isabel Clemente e Matheus Leitão) indica que tentará explicar "Por que o crescente poderio bélico de Hugo Chavez é uma ameaça à liderança brasileira" e "Como o governo Lula está planejando o maior investimento militar desde a ditadura".

A reportagem começa apresentando uma constatação de um instituto sueco que aponta a América Latina como a zona mais desmilitarizada do planeta. Porém, também teria-se constatado a mudança desse quadro há dois anos com a intenção do presidente Hugo Chavez em aumentar seu poderio bélico para solidificar sua liderança frente à América Latina e, em contrapartida, o governo Lula teria dobrado o investimendo do Brasil na renovação e ampliação dos equipamentos militares para impedir tal liderança. Finalmente, a reportagem assume o linguajar de Guerra-Fria quando enfatiza a compra de aviões e equipamentos militares russos pela Venezuela, pois esses seriam de altíssima precisão.

Como sabemos, a revista Época pertence à Editora Globo, organização da qual também faz parte a rede de TV que leva o mesmo nome. Como podemos ver em Além do Cidadão Kane, o veículo oficial de imprensa da ditadura militar... pasmem! O veículo oficial de imprensa da ditadura militar, critica, através de sua principal revista comercial atual, uma suposta militarização da Venezuela. Conforme as palavras contidas na própria reportagem, uma militarização de iniciativa de alguém "fanfarrão" que possui o "desejo expresso de se perpetuar no poder".

Não há um anseio de imposição ditatorial militar na Venezuela, conforme quer deixar implícito a matéria da revista Época. Desde a chegada de Chavez à presidência, a revolução bolivariana tem mudado os rumos daquele país através da participação popular. Nenhuma atitude é tomada sem um referendo ou uma consulta popular, ao contrário da militarização apoiada pela Globo, no Brasil, de 1.964 a 1.985, que a reportagem não cita na cronologia dos conflitos armados participados pelas Forças Armadas.

Ainda referindo-se a datas, no dia 14 de abril de 2.002 Chavez foi reconduzido ao poder após sofrer uma tentativa de golpe por parte da mídia venezuelana patrocinada pelos EUA, mesmo país onde vários golpistas fracassados tiveram asilo político concedido. O que não pode acontecer é a revolução bolivariana, sabendo que seus interesses internos por serem opostos aos dos EUA podem desencadear uma reação militar ianque, não se reforçar militarmente no caso de uma possível invasão, ainda mais levando-se em conta o poderio bélico dos EUA.

A reportagem também deixa claro o espírito de competição deflagrado pelos porta-vozes da direita brasileira quando se trata de relações internacionais. O sociólogo brasileiro Florestan Fernandes reconhecia os avanços contidos na Constituição Federal de 1.988, ainda que sua visão marxista de mundo fosse contrária a muitos princípios ali elencados. No § Único do art. 4º da CF, está escrito que "A República Federativa do Brasil buscará a integração econômica, política, social e cultural dos povos da América Latina, visando a formação de uma comunidade latino-americana de nações".

Não há competição entre o Brasil e a Venezuela pela liderança da América Latina e tanto Chavez quanto Lula já deixaram bem claro isso. Entretanto, os defensores da política de relações internacionais da ditadura militar e do governo FHC só reconhecem integração latino-americana desde que o Brasil se coloque na posição de imperialista regional e aproveitam para deflagrarem o ódio entre os povos da América Latina. Para eles, o Brasil deveria ter interferido no processo revolucionário venezuelano conforme queria a Secretária de Estado dos EUA, Condolezza Rice, assim como deveria ter interferido militarmente na Bolívia quando da nacionalização do gás, por Evo Morales.

A reportagem estimula o leitor a pensar haver uma disputada desenfrada pela liderança latino-americana entre Brasil e Venezuela supondo que Chavez tenha instigado Evo Morales a nacionalizar o gás boliviano e prejudicar os interesses da Petrobras. Mentira! A nacionalização do gás boliviano é uma reivindicação antiga dos indígenas bolivianos. Também não admitem os esforços da diplomacia internacional brasileira em colocar a Venezuela como membro do Mercosul com direito a voz e voto.

De quem o Brasil deve ter medo? O Brasil não é somente uma porção territorial com límites geográficos e leis que regulam a relação do indivíduo com o Estado. O Brasil é um povo que, guardadas as devidas proporções e realidades distintas, possui uma história semelhante a dos povos latino-americanos, que passa pela descoberta marítima, pela exploração colonial, pelo regime escravocrata ao longo de séculos, pela cristianização indígena, pelo uso do Estado para a garantia dos interesses privados de uma minoria e, recentemente, pelas ditaduras militares patrocinadas pelos EUA no continente e pela minimização do Estado impulsionada pelo neoliberalismo pós-Guerra Fria. Não devemos ter medo de alguém e sim sempre estarmos de olhos bem abertos àqueles que usam dos meios de comunicação para plantarem entre os oprimidos a discórdia, com o intuito de homogenizarem o discurso ianque e manterem para sempre entre povos irmãos a competição imbecil que nunca nos levou a lugar algum.

Lucas Rafael Chianello, além da grande mídia.

3 comentários:

  1. Apesar do senhor ser um fanfarrão alienado por escrever esse texto, não acredito que os caças russos que huguito comprou sejam ameaça a alguem nesse planeta, ele nao tem culhoes de atacar ninguem, nem mesmo pra essa farra que ele chama de revolução bolivariana.

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  2. Ah, notei a frase "Seu comentário foi salvo e será exibido após a aprovação do proprietário do blog.", o que já é esperado de alguem de esquerda stalinista. E você acha que o chavez tambem nao faz isso?

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  3. Caro Wermacht

    Se alguém vem aqui e escreve São Paulo pentacampeão brasileiro, não haveria motivo para um comentário desse constar no debate deste texto. Por isso a moderação de comentários, para evitar a veiculação de palavras desconexas com o assunto debatido, bem como uma possível ofensa a outrem, afinal, eu sou o responsável pelo blog e dependendo da dimensão que as coisas possam tomar, eu posso inclusive ser processado.

    Quanto aos seus comentários estritamente políticos, eu não sou um fanfarrão alienado. Seus comentários altamente construtivos mostram, dentre nós, quem tem argumentos plausíveis.

    Saudações!

    Lucas Rafael Chianello, além da grande mídia.

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