quarta-feira, 3 de outubro de 2007

DIOGO SCHELP E VEJA – ASSASSINOS DO JORNALISMO ÉTICO

A matéria de capa desta semana do semanário Veja superou os limites. A agressividade, a histeria e o panfletarismo são típicos das publicações da Abril e do jornalista que assinou o artigo sobre os 40 anos da morte de Che Guevara.
Desta vez, porém, os vícios habituais da editora não foram suficientes para a produção do texto. Para redigi-lo, recorreram a manipulações factuais, distorções históricas e mentiras escancaradas. O intuito evidente era enxovalhar a memória do Comandante Ernesto Guevara e seguir a obsessiva toada, já cansativa, sobre os supostos desacertos da Revolução Cubana.
Contestamos aqui apenas alguns pontos da reportagem, com o perdão da má palavra. Aqueles que, em nosso ponto de vista, não poderiam ficar sem resposta. Veja, embora tente, não será jamais dona da verdade.




“Veja conversou com historiadores, biógrafos, antigos companheiros de Che na guerrilha(...) Por isso, apesar do rancor que PODE apimentar suas lembranças, os exilados cubanos SÃO VOZES DE MAIOR CREDIBILIDADE".

Ou seja, está dada a desculpa para o amontoado de parcialidades e acusações rasteiras que surgem ao longo do texto. Vejamos algumas fontes da revista:

Napoleón Vilaboa, exilado em MIAMI, que ganhou dinheiro explorando a saída de cubanos pelo porto de Mariel, em 1980, no rastro de um acordo firmado entre Cuba e Estados Unidos;
Pedro Corzo, do Instituto de Memória Histórica Cubana, sediado em, pasmem, MIAMI! É tão arraigadamente estadunidense que, em seu e-mail de contato, nega até seu nome latino para adotar petercorzo@msn.com;
Jaime Suchlicki, historiador cubano, da Universidade de MIAMI, é claro;
Hubert Mattos, exilado em MIAMI, ex-comandante do exército rebelde, condenado a 20 anos em Cuba por traição. Não se sabe por que razões o tirânico regime deixou-o emigrar para os EUA. Segundo a lógica do doentio jornalista, o destino mais certeiro para Mattos deveria ser a morte.

Como se vê, não foram ouvidos cubanos residentes na ilha. O argumento de Veja? Com a repressão em Cuba, eles não sairiam da ladainha oficial. Para Veja, não há pensamento próprio na ilha, apenas fantoches que reproduzem discursos oficiais. Visão mais tacanha é impossível. Os cubanos de Miami são lúcidos e parciais. Já os da ilha são teleguiados pelo aparelho repressivo. Então tá.
Sugerimos a Schelp e a seus patrões um passeio de uma semana por Havana. Veja talvez tenha receio de visitar Cuba e descobrir que a ilha não é nada do que sustenta a revista em sua cruzada doentia contra a Revolução. E, para desespero maior de seus algozes ideológicos, está em absoluta normalidade desde o afastamento de Fidel Castro do poder, há 14 meses.
Sim, espera-se um dia a morte do líder, inegavelmente debilitado e já com 81 anos. Mas supor que sua desaparição física eliminará a revolução é um exercício de futurologia típico da revista e do jornalista. Ou, pior, um desejo indisfarçável de Diogo Schelp, a pena de aluguel mais furibunda a serviço dos controladores da Abril.

Prossigamos.

"Centenas de homens que ele (Che) fuzilou em Cuba tiveram sua sorte selada em ritos sumários que não passavam de dez minutos".

Quais? Que homens? Qual a fonte de Schelp?
Uma das primeiras decisões do novo governo rebelde, e isso é fato, foi a criação de juízos revolucionários como parte de um processo conhecido como Comissão Depuradora. Todos aqueles apontados como criminosos de guerra ou associados ao regime de Batista foram levados a julgamento. Entre janeiro e abril de 1959, aproximadamente mil colaboradores do antigo regime foram denunciados e julgados por meio dos tribunais revolucionários. Cerca de 550 deles foram condenados à pena de morte.
Ernesto Guevara, na condição de comandante de La Cabaña durante os primeiros meses da Revolução, teve sob seu comando os julgamentos e as execuções das penas daqueles que estavam detidos na fortaleza. Para disciplinar os juízos, estabeleceu um sistema judicial com tribunais de primeira instância e um tribunal de apelações. As audiências eram públicas e se desenvolviam como em um tribunal qualquer, com promotores de acusação, advogados de defesa e depoimentos de testemunhas, tanto arroladas pela acusação como pelos réus. A biografia de Jon Lee Anderson, citada, mas não lida por Schelp, a julgar pelo conteúdo de seu texto, mostra isso com nitidez.
As críticas dirigidas a Cuba por conta das sentenças de morte, à luz dos acontecimentos de então, são mais ideológicas do que movidas por razões humanitárias. Tratava-se de um período pós-guerra, com o país convulsionado e que, ademais, convivia com a possível reação das forças que desejavam a volta de Batista ao poder, minoritárias entre a população, mas poderosas economicamente.
Os principais algozes de Cuba, os Estados Unidos e seus aliados da Europa, vencedores da 2ª Guerra Mundial, não julgaram os criminosos nazistas de modo distinto daquele que foi adotado na Cuba revolucionária. Nem por isso houve insinuações de parcialidade contra o tribunal de Nuremberg ou o clamor mundial para que algum acusado deixasse de ser executado.
Entre os condenados aos fuzilamentos em La Cabaña figuravam notórios assassinos, torturadores das forças de Batista e outros criminosos que haviam enriquecido às custas de corrupção e da exploração da miséria da maioria da população cubana.


“Houve um golpe comunista dentro da revolução.”

Em que data isso aconteceu? O jornalista, um obstinado porta-voz da direita reacionária, é tão tresloucado em seus ataques sistemáticos à Revolução Cubana, que deve ter misturado períodos históricos. Houve um golpe de estado comunista na Revolução Russa, em 1917, quando os bolcheviques assumiram o controle do Estado e deram início a criação da União Soviética. Em Cuba, não. Fidel Castro sempre foi o líder máximo da Revolução, desde 26 de julho de 1953, quando atacou o quartel de Moncada, até tomar o poder, com amplo apoio popular (ignorado pela revista), em 1º de janeiro de 1959.

"Na versão mitológica, Che era dono de talento militar excepcional".

Não é verdade. Nem o próprio Guevara acreditava nisso. Um exemplo está em seu diário de campanha da guerra no Congo. Ele começa o livro com a frase "Esta é a história de um fracasso". Além do mais, tendo ou não talento militar excepcional, foi a Batalha de Santa Clara, em dezembro de 1958, comandada e vencida por Guevara, que desencadeou a queda de Fulgêncio Batista. Santa Clara era a última grande cidade antes de Havana e também a última esperança do regime em conter o avanço rebelde.

"Em seis meses de comando em La Cabaña, duas centenas de desafetos foram fuzilados".

Mais uma mentira. Na verdade, foram cerca de 550 condenados à morte e não eram "desafetos" ou apenas "gente incômoda", como diz Veja. Eram, principalmente, corruptos e torturadores do antigo regime. A matéria não diz, mas Che proibia tortura e fuzilamentos de soldados feridos ou já rendidos. Isso conta o biógrafo Jon Lee Anderson, utilizado por Schelp como escora para dar algum peso a seu texto imundo.

"Che descreve como executou Eutímio Guerra, "acusado" de colaborar com os soldados de Batista".

Guerra, segundo descreve a brasileira Claudia Furiati, autora de uma das principais biografias de Fidel, recebeu uma arma do exército e a ordem de executar Castro enquanto este dormia. Não o fez porque sempre havia sentinelas de plantão nos acampamentos rebeldes. A cada deslocamento da guerrilha, porém, a Força Aérea Cubana atacava o local, coincidentemente sempre que Eutímio deixava o acampamento.
Os rebeldes desconfiaram de seu comportamento, interrogaram-no e ele acabou confessando que era agente do exército. Foi julgado, no meio da selva, e condenado à morte, como ocorreria com um traidor em qualquer outra guerrilha do mundo. A justiça guerrilheira nada mais é que uma corte marcial adaptada às circunstâncias do momento. Guerra pediu que os rebeldes, caso triunfassem, educassem seus filhos. Hoje, seus descendentes são oficiais das Forças Armadas Revolucionárias.
Fidel não determinou quem executaria a tarefa de execução do traidor. Che Guevara realmente assumiu a incumbência, fato incontestável e, entre tantas linhas, um dos poucos acertos de Schelp.
Apenas deve se registrar que ele não matou um pobre camponês, mas um homem que pôs a vida de centenas de outros em risco. Por que, segundo a lógica de Schelp, os guerrilheiros podem e devem ser bombardeados por conta de uma delação e correr risco de morte e o responsável pela traição não pode ser executado?

"Ernesto Guevara Lynch de la Serna nasceu em uma família de esquerdistas ricos na Argentina".

Mais uma atrocidade de Schelp, que sequer conhece o nome da vítima de sua caneta. O nome de Che era simplesmente Ernesto Guevara e seus pais não eram ricos nem esquerdistas. Nenhum deles tinha filiação partidária, eram abertamente contra o governo Perón, que seduziu a esquerda argentina com seus projetos voltados aos descamisados, como a primeira-dama Eva Perón costumava se referir aos segmentos mais humildes da população argentina. Ernesto Guevara Lynch e Celia de la Serna, os pais, tampouco eram ricos. Viviam como um típico casal de classe média alta, se tanto. Moraram na Recoleta, o bairro mais elegante de Buenos Aires, quando a avó de Che morreu e lhes deixou como herança um apartamento. Claro que Veja não conta tudo em detalhes. Informar não é função do jornalismo da Abril.

"Para se livrar de Che, Fidel o mandou à Assembléia-Geral da ONU".

Delírio absoluto. Che era o segundo nome do estado cubano, o principal porta-voz da revolução, depois do próprio Fidel. Guevara viajou a inúmeros países e assinou diversos tratados de assistência econômica e militar com outras nações socialistas. Era perfeitamente normal que representasse Cuba em uma Assembléia da ONU.

"Como ministro e embaixador, não conseguiu o que queria".

Texto vago, até impede um comentário mais elaborado sobre algo tão pobre. Registramos apenas que Che NUNCA foi embaixador de Cuba.

"Che propôs a seus comandados lutar até a morte no Congo, mas foi demovido do propósito pela soldadesca".

Mentira deslavada. Che organizou a retirada da tropas cubanas, quando uma das facções congolesas entrou em acordo com o governo que até então combatia. Isso abriu caminho para avanço das tropas mercenárias financiadas por conglomerados mineradores da África do Sul, lideradas por Mike Hoare.
Diante do iminente massacre, Che ORDENOU a retirada de todos os cubanos do Congo. Claro, Veja cria sua própria versão da história.
E mais: dois soldados cubanos não conseguiram chegar a tempo ao barco, às margens do lago Tanganica, que os levaria à Tanzânia e ficaram perdidos em território congolês. Che mandou um destacamento da inteligência cubana em busca dos dois, que foram encontrados vivos, quatro meses depois, quase em território ruandês. Comportamento estranhíssimo para um louco sedento de sangue, egoísta e assassino até de seus próprios homens.

"Três fatos ajudaram a consolidar o mito. O primeiro, a morte prematura, que eternizou sua imagem jovem(...) a pinta de galã".

Ridículo. Diogo Schelp deveria procurar ajuda terapêutica. Acreditar que a aparência física de Che Guevara é responsável por sua irreversível entrada na História é algo que Freud pode explicar.

"A decadência física e política de Fidel Castro, desmoralizado pela responsabilidade no isolamento e no atraso econômico que afligem os cubanos, dá uma idéia do que PODERIA ter acontecido com Che".

O jornalista não diz que o isolamento é, essencialmente, fruto do embargo econômico imposto pelos Estados Unidos há quase 50 anos, naquela que talvez seja a maior agressão não militar já sofrida por uma nação em toda a história humana. Quanto à decadência política de Castro, trata-se, mais uma vez, de um desejo de Schelp. Uma viagem a Cuba rapidamente o convenceria do contrário. Fidel é idolatrado pela população, que vive, sim, em um país pobre e com problemas, admitidos até pelo governo cubano. Já a decadência física de Fidel é inevitável. Todos são mortais e não podemos nos esquecer que ele tem 81 anos e se recupera de grave doença. E em relação ao que PODERIA ter acontecido com Che, Pai Schelp de Ogum revela que tem predileção pelas ciências ocultas, pela futurologia. Talvez fizesse melhor em deixar o jornalismo.

"Se houve um ganhador da Guerra Fria, foi Che Guevara".

Raciocínio deplorável. O sujeito é capturado, rendido e assassinado, mas é ganhador. Pela mesma lógica, se alguém ganhou a 2ª Guerra Mundial, foram os judeus. Afinal, há 60 anos se fala em Holocausto e eles conquistaram o direito ao Estado de Israel, não importando o custo de seis milhões de mortes.

“Fidel se desmancha lentamente dentro daquele ridículo agasalho esportivo”.

Tenha calma, Schelp. Segundo a ordem natural das coisas, você terá o imenso prazer de ver Fidel morto. Temos certeza de que até o obituário de Veja já está preparado. Agressivo, virulento, histérico, panfletário, como é de seu estilo.
Você terá seu instante momentâneo de deleite, assim como a máfia cubano-americana de Miami, ávida por retornar à ilha e transformá-la de novo em um grande cassino.
Mas daqui a 50, 60 anos, o mundo continuará relembrando o aniversário da morte de Che Guevara e, infelizmente, para os que acreditam em outra ordem social, outros tantos anos da morte de Fidel Castro.
Quanto a você, terá sido devidamente esquecido e jogado na lata de lixo reservada para os assassinos do jornalismo ético. Ninguém lembrará de sua triste passagem pelo mundo.


São Paulo, 2 de outubro de 2007.

IZQUIERDA UNIDA

Lilian Vaz - Secretária-Geral
Luiz Alberto Costa Ortiz - Secretário de Finanças
Antonio Gabriel Haddad - Secretário de Comunicação
Vera Pasqualetto - Secretária de Organização e Administração
André Furtado - Secretário de Relações Institucionais

7 comentários:

  1. Vamos massificar essa campanha contra o jornalismo podre do Brasil, representado, especial pela revista Veja!

    http://andreiamurani.blogspot.com/

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  2. Muito obrigado por tudo que vc escreveu,pena que parce que muita gente não leu isso.
    Eu li essa materia esses dias e não acreditei no que estava lendo,e o pior foi que logo fui ler a revista da semana seguinte e todas cartas recebidas falando sobre o assunto era contra o Che.
    Valewwwww

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  3. Veja há muito que se tornou um panfleto anti-lutas populares. Mas o quê esperar de uma rvista da Abril, que por sua vez tem entre seus principais acionistas a Nasper responsável pelo suporte financeiro ao apartheid na África do Sul. A mesma África do Sul, do regime de apartheid, que enviou tropas para combater guerrilhas de esquerda no Congo como você bem destacou, além de Moçambique e Angola. Pode estar aí um dos motivos para tal estrume em forma jornalística. Quanto à Diogo Shelp a melhor definição que vi para esse assassino do jornalismo e deturpador de fatos, foi dado pelo professor Gílson Maringoni na Carta Maior... um cãozinho dos Civita.

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  4. Colega por acaso você já leu os livros: Che Guevara: Vida em Vermelho de Jorge G. Castañda, Che Guevara uma Biografia de Jon Lee Anderson e Passagens da Guerra Revolucionária: Congo do Próprio Che. Ele vai te esclarecer muitos colocações erroneas que vc fez no teu texto e todas tem fontes primárias verdadeiras e principalmente neutras. Independente de nossas posições politicas devemos sempre analisar o que lemos e escrevemos, pois se não temos conhecimentos de leitura e estudo profundo do assunto, acabamos por entender o que queremos da forma que acharmos melhor e em cor de rosa. Che sem dúvida era um homem de personalidade forte, mas nunca foi nenhum santo. Esses livros te esclarecem muitos aspectos da personalidade e os sonhos de Che, sem ser algo criado para vender imagem de bom garoto apresentado por muitos.

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  5. Colega, só mais um ponto que deixei de mencionar, eu não li a entrevista publicada e sim o teu texto, ocorre que meu projeto de pesquisa é justamente as aspirações e motivações de Che em relação ao seu ideal de mundo latino, pois bem sabes a cartilha que ele lia não era o marxismo (tinha suas restrições) e nem socialismo e sim o que poderiamos definir como latinismo, a libertação sempre pela força.

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  6. Prezada Laura

    Como você pode notar, o texto foi publicado por mim, mas a autoria não é só minha. A elaboração dele requereu a pesquisa de inúmeras fontes, o que está muito longe de querermos colocar aqui uma versão cor de rosa sobre o Che. Ainda sim, obrigado pelas indicações bibliográficas, enriquecem o debate no blog.

    Por fim, uma própria frase do Che sobre Marx: "O mérito de Marx é que produz imediatamente na história do pensamento humano uma mudança qualitativa; interpreta a história, compreende sua dinâmica, prevê o futuro, mas, além de prevê-lo, e aí cessaria sua obrigação científica, expressa um conceito revolucionário: não basta interpretar a natureza, é preciso transformá-la. O homem deixa de ser escravo e se converte em arquiteto de seu próprio destino. Neste momento, Marx converte-se em alvo obrigatório de todos aqueles que têm interesse especial em manter o velho".

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  7. assim como esse jornalista falou do nefasto henry kissinger por conta de seu livro,de um jeito como se kissinger fosse um velhinho bacana

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