sábado, 1 de dezembro de 2007

A DELAÇÃO CALUNIOSA DA DEMOCRACIA REVOLUCIONÁRIA NA AMÉRICA LATINA

Delação, de acordo com o dicionário, é o ato de delatar, denúncia. Um cidadão toma a atitude de denunciar algo às autoridades policiais quando outro comete crime. Entretanto, esta prerrogativa pode ser usada de forma ilícita, com o intuito sádico de se prejudicar alguém com quem não temos afinidade.

Eis a atitude da grande mídia perante os processos constitucionalistas na América Latina. Por não concordar com as decisões políticas tomadas na Bolívia e na Venezuela, usa-se a prerrogativa da informação para se tratar de forma policialesca questões internas de outros países que tomam um rumo alternativo à hegemonia neoliberal imposta pela classe dominante. Como se tudo fosse caso de polícia para ser noticiado em programas policiais como o antigo e, infelizmente famoso, Aqui Agora.

A primeira característica da falsa versão midiática é tratar dos fatos políticos democratas e revolucionários na América como construção de ditaduras. Falso e pretensioso.

Ditadura é um governo no qual um indivíduo ou um grupo usa de suas prerrogativas governamentais para impor seu modo de governar ao resto da população. Não é isso o que ocorre na Bolívia e na Venezuela. Em ambos os países, as novas Constituições aprovadas e algumas outras medidas governamentais foram submetidas a consulta à população (referendos populares) e somente se tornaram efetivas porque a população votou favorável a elas.

Se a democracia é o governo do povo, pelo povo e para o povo, a vontade do povo deve estar acima de tudo, e na situação na qual encontram-se atualmente Bolívia e Venezuela, nada mais foi referendado a não ser a vontade popular. Portanto, a nova Constituição boliviana e as alterações constitucionais venezuelanas são democraticamente legítimas, pois foram e serão aprovadas pela população.

Logo, ditadura, de fato, foi o que ocorreu na América Latina durante as décadas de 60, 70 e 80, quando os EUA patrocinaram exércitos de Estados latino-americanos para instalarem governos militares que servissem a seus interesses no tempo da Guerra Fria, para que esses países mantivessem em curso a economia capitalista de mercado. Em qual desses países uma nova Constituição foi aprovada através do voto popular nesse período?

Constrói-se a qualquer custo uma imagem de arrogância e personalismo quando a grande mídia trata de analisar as palavras do Presidente Hugo Chávez. Prato cheio para isso foram as palavras do Rei da Espanha, Juan Carlos I, na reunião dos países Ibero-americanos: "por que não te calas"? A grande mídia gozava seu alívio, finalmente mandaram Chavez calar a boca. Entretanto, alguns esclarecimentos e recordações daquilo que se aprende na própria escola primária são necessários.

Chavez se referia ao ex-primeiro ministro espanhol Jose Maria Aznar como fascista devido ao envio da Espanha de tropas militares ao Iraque em colaboração com os EUA. No calor da discussão, o Rei da Espanha, enquanto presidente de mesa, mandou Chavez se calar. Logo, a grande mídia tratou de justificar a imponderada atitude do Rei espanhol à falta de diplomacia de Chavez. Porém, trata-se saber que a situação é o inverso daquilo que se diz.

Fosse dotado o Rei espanhol de diplomacia, ele teria tomado qualquer atitude, menos mandar um chefe de Estado calar a boca. E para que fique bem claro um dos motivos pelo qual o Rei da Espanha proferiu a infeliz atitude, quando da tentativa do golpe de Estado midiático na Venezuela, o primeiro país depois dos EUA a reconhecer o golpe foi a Espanha. Logo, qual outra atitude esperar de alguém que reconhece golpes de Estado?

Parece que a grande mídia esqueceu que durante séculos, exceto o Brasil, todos os países da América Latina foram vítimas do domínio colonial espanhol. Não bastasse esses países terem sido colônias espanholas, o colonizador de ontem os manda calar a boca! Acúmulo histórico colonialista, senso de superioridade, arrogância, tudo, menos falta de diplomacia de Chavez. Por acaso, quem envia tropas militares para o Iraque e reconhece a covardia de um golpe de Estado é o que? Colaborador de causas humanitárias?

Ainda esclarecendo os fatos, ibero-americanos são os países pertencentes à América (continente onde se situa a Venezuela) e à Península Ibérica, onde estão localizados Portugal e Espanha. Chavez é um chefe de Estado que precisa zelar pelo seu país. Logo, era uma oportunidade para ele tornar público algo que não era do conhecimento de todos, o reconhecimento por parte da Espanha do golpe contra a Revolução Bolivariana em Abril de 2002. Portanto, como sugere o título deste artigo, é bom que se apure os fatos para que não nos deixemos levar por acusações sumárias.

Por fim, expondo um pouco da situação boliviana, o que podemos perceber é que também naquele país a classe rica não tem noção de democracia. A tentativa de se transferir a capital da Bolívia para Sucre, lugar onde se concentra a classe rica do país e onde situa-se a sede dos poderes judiciário e constitucional, e a violência instigada pelos meios de comunicação locais não passam de atitudes deflagradas pela classe rica boliviana para tentar frustar a nova Constitução aprovada no último fim de semana. Eis a luta de classes nua e crua. A classe rica do país, serva dos interesses internacionais, não se conforma com a opção pelos pobres tampouco pela nacionalização dos recursos naturais, financiando a violência e instigando o ódio classista nos meios de comunicação... com ajuda dos meios de comunicação da classe dominante no Brasil!

Enquanto houver capitalismo, ricos e pobres, haverão divergências políticas. Entretanto, que os meios de comunicação arranjem novos argumentos para se oporem aos processos constitucionais populares na América Latina. A desculpa de que Chavez e Morales pretendem deflagrar ditaduras não colou para os politizados que sabem a quem a grande mídia serve. Não passa de delação caluniosa.

Lucas Rafael Chianello, além da grande mídia.

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