sábado, 8 de dezembro de 2007

O FIM DO RÓTULO DE DITADOR

O fenômeno da globalização, como bem coloca o sociólogo português Boaventura de Sousa Santos, tem, dentre várias características, atacar a cultura local de certa região em substituição à cultura que a globalização coloca como dominante.

No caso da América Latina, séculos de colonização impostos pela Península Ibérica, o patrocínio dos EUA a golpes militares no continente e a substituição dessas ditaduras por democracias liberais levaram a cabo a total descaracterização cultural e política da América Latina.

Pelo lado da cultura, cada vez mais as culturas regionais dos povos latino-americanos são substituídas pelo “american way of life”, enquanto no plano da política a maioria dos governos latino-americanos, a priori, não passam de governos fantoches dos EUA.

Entretanto, como já colocava Marx, no capitalismo a classe social dominante gera a sua negação a partir do momento em que se tornam evidentes, na consciência humana, os sintomas do capitalismo. No caso da América Latina, as democracias liberais pós-ditadura militares e fim da Guerra Fria não solucionaram os problemas sociais. Altos índices de analfabetismo, fome, falta de saneamento básico, falta de moradia e educação colocaram os países latino-americanos na esfera dos países periféricos. Em meio a essas contradições, surgiu a figura política do Presidente Hugo Chávez.

Brevemente expondo, pois não queremos repetir aqui o já falado em “A revolução não será televisionada”, Chávez se tornou polêmico por ter se tornado um presidente popular que usou do poder para fazer reformas em prol dos menos favorecidos. Nesse contexto, veio a contrariedade aos interesses dos EUA, pois reformas sociais num país rico em petróleo deram a Chávez o status de inimigo do Tio Sam, que para tentar derrubá-lo, financiou os grandes canais de TV privados da Venezuela, atribuindo ao Presidente da Venezuela uma falsa personalidade ditatorial. Mas quem é ou quem são os ditadores da história?

Ditador é aquele que usa do poder político para executar suas vontades de forma unilateral. A ditadura é o governo do ditador. Logo, desde quando Chávez foi eleito em 1998 até hoje, reeleições, medidas governamentais e a promulgação de uma nova Constituição foram votadas pela população venezuelana.

O que dirá agora a grande mídia? Se Chávez é um ditador, como se sujeitou a colocar em referendo questões tão importantes e ser derrotado? Não seria mais fácil para ele, já que possui ampla maioria da Assembléia Nacional, aprovar uma emenda à Constituição através apenas do legislativo nacional?

Enquanto isso, vemos, por exemplo, uma capa da Veja destacando a opinião de militares sobre os fatos atuais, defendendo, dentre outros, a prática do crime de tortura para se investigar a autoria de crimes.



É notória a posição política da principal publicação da Editora Abril, especialmente se recordarmos que um dos seus acionistas ajudou a financiar o Apartheid, regime de segregação racial na África do Sul. Pergunta-se: o Apartheid e as ditaduras militares impostas na América Latina no tempo da Guerra Fria, financiadas pela CIA e pelo FBI, foram submetidas à aprovação popular? Tire, caro leitor, suas próprias conclusões de quem é ditador e de quem não é.

Ainda tratando-se da grande mídia mais as classes dominantes anti-populares e seus pseudo-intelectuais cães de guarda, qual o tratamento que dispensarão à Chávez agora que perdeu uma disputa e foi o primeiro a reconhecer o resultado das urnas? O que escreverão Folha de S. Paulo, Estadão e O Globo em seus editoriais onde a sempre presente figura de Chávez ora é comparada à Mussolini, Saddam Hussein ou a um ditador de alguma republiqueta de bananas? O que dirão William Waack e Arnaldo Jabor no Jornal da Globo? O que dirão os conservadores e reacionários apresentadores de telejornais da Band e do SBT? E a Veja engolirá o termo ditadura-democrática ou continuará sendo o lixo mentiroso em que se tornou? Apenas no terreno do surrealismo pode um governante autoritário e facínora convocar uma consulta popular, ser derrotado e reconhecer sua derrota. Mas é assim que os setores anti-populares pintam Chávez. Então, chamemos Felini, pois a vida real já está em roteiro de filme surreal.

Não podíamos também deixar de recordar de uma reportagem do Jornal Nacional no dia em que a oposição à revolução bolivariana tomou a Avenida Bolívar, em Caracas, para fazer sua campanha pelo Não no referendo. Mais uma vez caiu a tão dilacerada máscara do JN e da Globo, pois somente na ditadura de 1964 a 1985, da qual esta rede de TV era o principal meio de comunicação, não era permitido a oposição expressar suas aspirações políticas como aconteceu na Venezuela. Entretanto, o jornalismo da Globo é tão imparcial que sequer mostraram as imagens de passeatas favoráveis ao Sim à reforma constitucional.



INVERTENDO OS PÓLOS: à esquerda, manifestantes pelo Não no referendo, à direita, os defensores do Sim. Pelo visto, Chávez ainda tem muito apoio popular na Venezuela, enquanto as liberdades políticas continuam garantidas.



MULTIDÃO REVOLUCIONÁRIA BOLIVARIANA TOMA AS RUAS: repare dentro do contorno preto que somente uma longa avenida não foi suficiente para abrigar os manifestantes pró-Sim ao referendo nas ruas de Caracas.

Engraçado ver o meio daqueles que teimam em distorcer fatos e chamar Chávez de ditador. Jornalistas que trabalham em redações sem a menor democracia, onde devem obediência completa a seus editores, ou seja, aos capatazes e homens de confiança dos donos de meios de comunicação.

Ou então os bispos da igreja católica venezuelana. Bispos, que através dos cardeais nomeados pelo Papa, elegem o próprio Papa em eleições secretas para um mandato vitalício.

Ou ainda grandes empresários que apenas reconhecem a democracia se ela estiver do portão para fora de suas de fábricas. Ah! Não poderíamos nos esquecer dos políticos eleitos com doação de multinacionais, políticos escolhidos dentro de seus respectivos partidos onde na maioria absoluta dos casos há pouca ou nenhuma participação popular, sendo que aqueles mais abençoados pelo capital nacional ou internacional são os primeiros escolhidos.

Por fim, falando de capital internacional, infelizmente um elemento presente no referendo do último domingo na Venezuela foi a ingerência estadunidense, fato que “passou batido” nas telas e capas de revistas da grande mídia. Não bastasse a ingerência dos EUA na América Latina no tempo das ditaduras militares, é lamentável saber que a oposição da grande mídia privada venezuelana e os protestos de estudantes contra a reforma constitucional proposta por Chávez foram patrocinadas pelos EUA, que não respeitam a auto-determinação dos povos e tentam, a todo momento, derrubar governos democraticamente eleitos apenas porque estes não corroboram seus interesses de servidão.

Ainda é preciso uma análise mais aprofundada para se chegar à uma conclusão mais clara dos motivos da derrota chavista no último domingo, mas independente de quais sejam esses motivos, a lição que fica é que para fazer oposição a Chávez, a grande mídia (brasileira e venezuelana), a Igreja Católica, o empresariado ao financiar os grandes meios de comunicação privados e os EUA, dotados de sua identidade imperialista, não podem mais atribuir a Chávez a personalidade de ditador.

Lucas Rafael Chianello e Hudson Luiz vilas Boas, além da grande mídia.

Um comentário:

  1. Essa exposição de idéias não poderia ser melhor!
    E de fato me fez refletir acerca das informações passadas pela mídia de fato. Aliás o nome do Blog já traduz isso...
    No mesmo asssunto, José Saramago define a globalização como uma forma de ditadura também. São os ricos que governam e os pobres vivem como podem. É o controle da economia mundial, das movimentações finaceiras e de pessoas por alguns.

    Parabéns e continuem na luta!

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