terça-feira, 30 de dezembro de 2008

50 ANOS DE REVOLUÇÃO

Não há revolução sem consciência - Jean Jaurés

Oportuna e ímpar a frase citada quando se trata da revolução cubana. Tal consciência, popular, é pilar fundamental do socialismo em Cuba. Não é somente a consciência do cidadão que acompanha a política diariamente para exercer e reivindicar seus direitos frente aos órgãos estatais, mas é acima de tudo, e isso é o mais importante, uma consciência histórica, daquilo que era o país antes e após determinado fato.

Desde o dia 1º de janeiro de 1959 Cuba nunca mais foi a mesma. Nem mesmo as imensas atrocidades estadunidenses cometidas contra a Ilha, principalmente o covarde bloqueio econômico, foram capazes de impedir a realização de um projeto de sociedade executado por um povo que escolheu ser dono do seu próprio destino. E talvez resida aqui a maior causa do sucesso deste projeto.

Durante a Guerra Fria, Cuba não pediu licença à União Soviética para executar o seu modelo de socialismo. Liderada por Fidel Castro, tomou por si só a atitude de erradicar o analfabetismo, a fome, a falta de moradia e vestuário e dentre outros inúmeros avanços sociais, como por exemplo a medicina acessível a todos, mostrou ao mundo que é possível proporcionar aos cidadãos a mais plena e infindável busca pela igualdade social.

Não bastasse inserir todos os seus cidadãos na construção da igualdade nos seus mais enumerados âmbitos, principalmente o social e o político, Cuba também deixou, em 50 anos de revolução, sua marca na solidariedade internacionalista. Até então, conforme citado anteriormente, Cuba era o único país da América Latina a ter erradicado o analfabetismo. A aplicação do método audiovisual "Si, yo puedo" (Sim, eu posso) foi decisiva para que a Bolívia presidida por Evo Morales e a Venezuela presidida por Hugo Chávez fossem os próximos países da América Latina a erradicarem o analfabetismo.

Em matéria de relações entre Cuba e Brasil, não podemos esquecer da solidariedade cubana em ter oferecido asilo político para vários militantes brasileiros que fugiram do país para não serem presos pela ditadura militar, assim como para a família desses militantes, como a de Carlos Lamarca.

Tudo isso poderia ter sido colocado a perder quando a URSS, presidida por Mikhail Gorbatchov deflagrou a glasnost e a perestróika. Mas a autodeterminação do povo cubano falou mais alto, quando seu porta-voz, Fidel Castro, desconfiou da proposta política do último presidente soviético. A queda do Muro de Berlim, a devassa neoliberal mundo afora mais o endurecimento do bloqueio econômico através das leis Torricelli e Helms-Burton não foram capazes de tirar Cuba dos caminhos do socialismo e da igualdade. E assim Cuba mais uma vez se afirmava como inspiração alternativa de um modelo político, social e econômico.

Por fim, importante ressaltar que a resistência cubana faz da ilha o único país latino-americano a resistir a golpes de Estado patrocinados pelos EUA na América Latina ao longo da segunda metade do século XX. Enquanto o maior império da história da humanidade, localizado a 200 Km da costa litorânea cubana, promoveu ações militares que culminaram em golpes de Estado de governantes esquerdistas e progressistas na América Latina, como João Goulart no Brasil em 1964 e Salvador Allende no Chile em 1973, lá estava e ainda está Cuba, caminhando em função de seus objetivos e resistindo à força do império estadunidense.

Diversos outros motivos existem para Cuba comemorar o cinquentenário de sua revolução, mas o mais importante é que em meio às suas escolhas, dificuldades e solidariedade internacional, Cuba venceu e continua vencendo diariamente no sentido de mostrar à humanidade que para ela é possível outro caminho além do capitalismo e da exploração do homem pelo homem, nos restando, portanto, reconhecer seus méritos e parabenizar o povo cubano.

Lucas Rafael Chianello, além da grande mídia.

sábado, 13 de dezembro de 2008

ESTAMOS DE VOLTA

Salve, salve, leitores. O blogue Além da Grande Mídia passou por alguns meses de inatividade e manutenção devido à tarefas pessoais imprescindíveis de seu responsável em âmbito de vida pessoal. Passado este período, estamos de volta para continuarmos o debate através de uma forma nova e diferente de se fazer jornalismo.

Algumas novidades podem ser conferidas. As cores e formatos de fundo do blog continuam as mesmas, porém, temos novas descrições do que é o blogue e do perfil do responsável, que agora também escreve para os blogues Gol de Bico e Na Reta Oposta.

À esquerda, abaixo do perfil do responsável e do arquivo, temos duas seções de conexões a outras páginas virtuais que julgamos serem também além da grande mídia, tanto a nível nacional como internacional. Qualquer sugestão de novas conexões DEVEM ser feitas para aumentarmos a abrangência do blogue.

Por fim, a eleição de Barack Obama, as eleições regionais na Venezuela junto com a nova tentativa de Chavez de aprovar uma nova Constituição que permita a reeleição vitalícia para o cargo de presidente, assim como a crise do capitalismo presenciada atualmente com certeza serão assuntos que trataremos por aqui. Não iremos deixar também de abordar os 50 anos da revolução cubana.

Em suma, terminaremos 2008 e começaremos 2009 em altíssima velocidade e assim continuaremos. Opinem, concordem, critiquem, discordem!

Lucas Rafael Chianello, além da grande mídia.

quinta-feira, 11 de setembro de 2008

LIÇÕES DE “ONZES” DE SETEMBRO

Hoje é 11 de setembro. Com certeza os jornais da imprensa falada e escrita mostrarão imagens e matérias sobre o dia em que o maior império da história da humanidade levou, talvez, o seu maior “tapa na cara”. Era mais um dia comum até dois aviões chocaram-se contra as torres gêmeas do World Trade Center e no mesmo dia Osama bin Laden ser acusado de mandante do atentado. Impressionante como em poucas horas um culpado já foi apontado.

Entretanto, 11 de setembro não rememora somente às torrês gêmeas. Neste mesmo dia, há 35 anos, o mesmo país que sofreu o maior atentado da sua história aplicaria um covarde golpe de Estado contra o primeiro estadista marxista do Cone Sul, Salvador Allende, eleito democraticamente em 1970 e que, se estivesse vivo, estaria completando seu centenário.


Salvador Allende, presidente do Chlie entre 1970-73.

Uma boa indicação para o leitor é o livro da pesquisadora chilena Patrícia Verdugo: “Chile, 1973, como os EUA derrubaram Allende”. Neste livro está contido de forma bem detalhada o resultado de uma árdua pesquisa, nos seus mínimos detalhes, de como os EUA arquitetaram e financiaram um dos mais covardes golpes de Estado do Século XX. Para o leitor ter uma idéia, Patrícia Verdugo relata que os EUA consideravam o governo de Allende mais “perigoso” do que a Revolução Cubana liderada por Fidel Castro.

Formado em medicina, Allende aos poucos descobrira o par perfeito que faria com o socialismo desde quando começou a exercer a profissão. Preocupado com a saúde dos menos favorecidos, Allende não se conformava somente em diagnosticar e receitar. Quando seus pacientes não tinham dinheiro para comprar os remédios, ele mesmo os comprava.

Deixando os detalhes para o momento oportuno, o fato é que na política Allende tinha uma obsessão: a união dos partidos de esquerda em torno de um só objetivo. Dessa união nasceria a Unidade Popular, o pilar que sustentaria Allende no poder até que fosse executado o golpe de Estado que culminou em 17 anos de ditadura no Chile. A importância da Unidade Popular seria conduzir um processo político que instalasse no país um governo socialista de forma democrática.

Infelizmente, assim como no Brasil em 1964, o Chile foi mergulhado num período de trevas através de uma ditadura financiada pelos atuais invasores do Iraque, que justificaram golpes de Estado não só no Chile presidido por Allende e no Brasil presidido por João Goulart, mas em todo o Cone Sul, sob o signo do anti-comunismo. Curioso ressaltar que na ditadura cruel e sangrenta de Pinochet, muitos dos seus opositores, clamando por democracia, foram fuzilados no Estádio Nacional, mesmo local onde a seleção brasileira no último domingo venceu o Chile por 3x0 pelas eliminatórias da Copa do Mundo de 2010.

Enfim, 11 de setembro guarda semelhança peculiar com o ano de 1968: é dotado de grandes lições e reflexões políticas (cada um nas suas devidas proporções). Porém, enquanto imagens de um atentado até hoje não muito bem explicado estarão sendo veiculadas na TV e nos jornais para que fiquemos com pena dos invasores do Iraque e do Afeganistão, com certeza a grande mídia, neste dia de hoje, se furtará de dar destaque ao covarde golpe de Estado ocorrido no Chile em 1973. E assim estaremos tendenciosos a continuarmos com pena daqueles que hoje proporcionam o maior “estado de paz” no Iraque e no Afeganistão em resposta ao tal atentado. E ainda somos obrigados a aprender a hilariante piada: “a grande mídia atualmente é grande fonte de informações do cidadão”.

Lucas Rafael Chianello, além da grande mídia.

quarta-feira, 14 de maio de 2008

LIÇÕES DO REFERENDO AUTÔNOMO

Como já foi dito em artigos anteriores neste blog, a Bolívia é um país que tenta existir. A luta por sua existência passa por uma análise que a grande mídia não se dará ao dever de informar aos seus leitores, pois tratar dessa visão diferenciada e histórica não interessa aos anunciantes comerciais, sustentáculos da desinformação.

Não existe regras elencadas em artigos sobre como se dá um processo de elaboração de uma Constituição. Por esta ser a lei maior que venha a representar a vontade de um povo de um país, deve nascer de uma assembléia constituinte, na qual o povo, de acordo com sua vontade, edificará juridicamente o Estado e seus objetivos, que, por uma razão óbvia, devem contemplar os anseios populares.

Ao ser julgado pelo assalto ao Quartel de Moncada, Fidel Castro, em sua defesa, foi sábio juridicamente ao argumentar que ao contrário do que requeria a acusação não houve agressão a um poder constitucional do Estado cubano naquela época, pois “legítima é a constituição que emana diretamente da soberania popular”. Eis umas das palavras pronunciadas por Fidel Castro em sua defesa, haja vista ele ser advogado.

Tanto de acordo com a concepção de mundo dos seus editores como de seus anunciantes, para a grande mídia o grande culpado pela agenda separatista que tem pautado a Bolívia nas últimas semanas é o Presidente Evo Morales, um índio insolente que nacionalizou o gás e permitiu à sua população elaborar uma nova Constituição que somente entrará em vigor se for aprovada mediante o sufrágio universal. Entretanto, quando vimos os meios de comunicação noticiarem que a elaboração do Estatuto Autônomo do Departamento de Santa Cruz é legítima por preencher seus requisitos jurídicos?

Mais uma vez, cai a máscara da grande mídia, que revela toda a sua parcialidade escondida no mito da imparcialidade. Seu lema é: “à direita, presunção de veracidade, à esquerda, presunção de sabotagem”. Não houve em nenhum telejornal ou na imprensa escrita qualquer imagem de cidadãos bolivianos mostrando para as câmeras de emissoras internacionais cédulas de votação do Estatuto Autônomo de Santa Cruz já preenchidas com o SIM antes de serem depositadas nas urnas. Talvez seja por isso que o índice de aprovação do Estatuto Autônomo tenha atingido 85%, enquanto a abstenção chegou a 35 pontos percentuais.

Além do flagrante desta lamentável atitude, pergunta-se: qual assembléia constituinte elaborou e deliberou pela votação do Estatuto Autônomo? Se nenhuma assembléia o fez, não existe legitimidade popular e política para o Estatuto ser válido para as pessoas.

Ao julgarmos os fatos políticos, precisamos da maior compreensão histórica possível, ainda mais se tratando de outros países, por uma questão de respeito. Se aprendermos história e política com a grande mídia, além de estarmos fadados ao desrespeito com os outros países, estaremos repetindo argumentos mercadológicos e conservadores, sequazes do status quo, enquanto devemos estar ao lado dos transformadores sociais.

EM TEMPO

Pouco tempo após a finalização deste artigo, foi noticiado que o Presidente Evo Morales aceitou a convocação de um referendo revogatório do seu mandato e dos governadores dos departamentos. Seu argumento é de que a resolução dos problemas da Bolívia deve se dar pelas urnas e não pelas armas. Nunca um homem branco foi tão civilizado e pacífico como este índio.

EM TEMPO II

A fonte de onde teríamos as fotos de bolivianos mostrando cédulas fraudadas não está disponível na fonte de pesquisa. Assim que estiver, será disponibilizada.

Lucas Rafael Chianello, além da grande mídia.

sábado, 29 de março de 2008

DALAI-LAMA: HOMEM DE PAZ, OU DE LAMA?

Situando

Nos últimos dias, a imprensa tem destacado, especialmente nas páginas esportivas, o conflito entre tibetanos e chineses às vésperas dos Jogos Olímpicos de Pequim. A princípio, atribui-se à China o ato oprimir militarmente os monges budistas moradores da província do Tibete, assim como é atribuída ao Senhor Tenzin Gyatzo, o 14ª Dalai-Lama, a imagem de homem de paz e serenidade, título especialmente sustentado pelo Prêmio Nobel da Paz a ele concedido em 1989. Em suma, o 14ª Dalai-Lama, exilado em Dharamsala, na Índia, é tratado como líder religioso e político de um povo supostamente oprimido por “chineses intolerantes”, como afirmava o personagem de Brad Pitt no filme Sete Anos no Tibete.


O Sr. Tenzin Gyatso,
reconhecido mundialmente
como o 14º Dalai-Lama: homem de paz?

Porém, como a grande mídia, escondida na falácia da imparcialidade, noticia somente aquilo que a convém, tornam-se necessários alguns esclarecimentos históricos, afinal, se analisarmos a fundo, o Sr. Tenzin Gyatso não parece ser esse homem de paz conforme a mídia e o senso comum tanto nos passam. Não se trata de lecionar história, mas sim buscar na história argumentos que sustentam teses.

O reino tibetano do Tubo foi formado no século VII d.C., quando dois descendentes e soberanos casaram-se com princesas da etnia han e então firmaram diversos acordos com o Império Chinês, vindo a acelerar o intercâmbio cultural entre ambos. No século XIII d.C., Marco Pólo, ao visitar a corte de Kublai Khan, imperador mongol da China, constatou que o Tibete era uma das doze províncias que a compunham. Desde a mesma data, nenhum país no mundo reconhece o Tibete como Estado soberano.



O lendário viajante italiano Marco Pólo

Com as Guerras do Ópio contra a Grã-Betanha, nos anos de 1839 a 1842, inicia-se na China um processo de tentativa de desmanche da sua soberania e do seu território. A Rússia czarista ocupou o norte mongol, criando a Mongólia Exterior, e o Japão ocupou a Manchúria, localizada no nordeste do país. Fragilizada com as Guerras do Ópio, o poderio militar inglês e o não controle de territórios, a China tornou-se praticamente uma colônia do Império Britânico, quando então é delegado ao poder político imperial controlar as relações exteriores do Tibete. Não o bastante, é assinado o Tratado de Lhasa (capital do Tibete), no qual a China, uma “semicolônia” britânica, é obrigada a pagar pesadas indenizações ao tesouro britânico, garantir acesso a rotas comerciais, estacionar tropas inglesas e instalar postos de correios e telegráficos.

A China torna-se uma república

Em 1911, a China torna-se uma república e o 13º Dalai-Lama admite a libertação do Tibete do jugo imperial. Todavia, Pequim declara que o Tibete integrava o território chinês, assim como Marco Pólo havia apontado há séculos. Com a morte do 13º Dalai-Lama, Tenzin Gyatso, o 14º, é conduzido ao posto aos seis anos de idade em 1935. Já consolidada enquanto república, a China viu os partidos nacionalista e comunista darem entre si uma trégua para conterem a invasão japonesa na Segunda Guerra Mundial. Findada a Segunda Guerra em 1945, quatro anos depois triunfa a revolução chinesa liderada por Mao Tse-Tung.

O Tibete e a revolução socialista

Sob a liderança de Mao, o exército comunista estava muito fortalecido. Sabendo disso, os EUA aumentam sua intervenção no Tibete em 1947, quando então Mao Tse-Tung envia para lá uma coluna do exército vermelho liderada por um certo general chamado Deng Xiaoping. O Tibete, que através do 13º Dalai-Lama reconheceu ser um território chinês, assina com a China em 1951 um acordo de libertação pacífica, o que lhe dá o status de minoria étnica que goza de autonomia, bem como o direito de liberdade de crença.

Eis então um fato jamais dito pela grande mídia: o Sr. Tenzin Gyatso, o 14º Dalai-Lama, participou da primeira legislatura da Assembléia Nacional Popular da China, que elaborou a Constituição da República Popular, vindo a ser eleito um dos vice-presidentes do comitê permanente da Assembléia. Dando continuidade a suas atividades, o 14º Dalai-Lama tornou-se presidente do comitê provisório encarregado de organizar a região autônoma do Tibete, estando as relações entre China e Tibete normalizadas.

Entretanto, a normalidade deu lugar à tensão quando foi elaborado um projeto de reforma democrática para o Tibete, na qual a religião seria separada do Estado, a servidão rural e a escravidão doméstica seriam abolidas e as terras, monopolizadas pela aristocracia civil e pelos mosteiros, seriam redistribuídas. Estando o Dalai-Lama envolto de forças anti-chinesas e separatistas tibetanos, coube a facção pró-ocidental, já patrocinada pela CIA, retomar a ofensiva sobre a China.

Com a fundação da organização política “Quatro rios e seis montanhas” e o patrocínio da CIA, em 1956 é deflagrado um ataque a funcionários e prédios públicos tibetanos e obras de infra-estrutura. Tibetanos defensores das reformas iniciadas pela China também seriam alvos. Em 1959, mais precisamente no dia 17 de março, o Dalai-Lama se exila em Dharamsala e a facção pró-ocidental de Lhasa tenta, manu militari, retomar o Tibete, com a China restabelecendo a ordem 72 horas depois. Recorda-se que em direito internacional é lícito recorrer ao direito de guerra somente em caso de defesa.

A partir do momento em que a China controla o Tibete, as reformas democráticas mudam o cenário social. Em 1990, o governador do Tibete seria, obrigatoriamente, da etnia tibetana e não da etnia han, como era anteriormente, assim como 70% dos funcionários públicos. Entretanto, o homem da paz da grande mídia diz haver um genocídio cultural no Tibete. Pouco importa, pois lá foi introduzido o bilingüismo, fala-se o mandarim e o tibetano, com preferência para este último. A construção da ferrovia que liga Pequim a Lhasa deu novo fôlego econômico à região, a mais pobre do país. No plano da preservação da tradição religiosa, há 46 mil monges e monjas (cerca de 2% da população), acesso livre a imagens sagradas e 1.700 mosteiros em atividade. Retomou-se a tradição dos festivais religiosos e iniciou-se a publicação de escrituras sagradas budistas, algumas inéditas. A epopéia tibetana do Rei Gasar, tradicionalmente oral, está sendo publicada em vários idiomas.

No campo social propriamente dito, o fim da teocracia escravista deu lugar à redução de 90 para menos de 20% do número de analfabetos, conforme estatística de 2005. Ainda é preciso erradicar o analfabetismo, mas já melhorou muito o indicador. Até 1950, não existiam escolas públicas de primeiro ou segundo grau, atualmente há mais de 3000. Há também uma universidade e três grandes centros de pesquisas. As mulheres ocupam cerca de 20% do funcionalismo público e 28% das vagas na universidade, enquanto na época da teocracia escravista a participação feminina na sociedade era praticamente nula. Por fim, a expectativa de vida aumentou de 35 anos em 1950 para 65 anos em 1990. Dados e fatos apresentados, pergunta-se: o que a grande mídia e o próprio Dalai-Lama chamam de opressão?

Cai o mito do homem da paz!

A poucos meses do início dos jogos olímpicos de Pequim, a grande mídia noticia intensamente uma rebelião de tibetanos contra o governo chinês. Pasmem! Os defensores da paz e da serenidade, injustiçados por um governo central, se valendo do corre-corre para conseguirem seus objetivos, dentre os quais poder restabelecer algum dia a teocracia escravista da qual tanto têm saudade.

Tamanha é a serenidade e a vocação pacífica do Dalai-Lama, serenidade esta que o permitiu fazer vista grossa ao financiamento da Sociedade americana por uma Ásia livre, braço da CIA, na década de 50, organizada pelo seu irmão Thutban Norbu. Ou então, a mesma serenidade e vocação pacífica que também o fez não dar importância à célula da CIA estabelecida em 1951, no Tibete, por seu irmão Gyalo Thondup.

Monges “injustiçados” que receberam 1,7 milhão de dólares anuais da CIA na década de 60. Dessa quantia, 180 mil dólares pagos diretamente ao sereno e pacífico Dalai-Lama! Ajuda vigente até 1974.

A obtenção de um visto de entrada nos EUA na administração Carter rende ao pacifista da grande mídia novos colaboradores no congresso estadunidense em prol da sua causa. Talvez todas essas colaborações justificam o fato do Dalai-Lama ter ganhado o Prêmio Nobel da Paz de 1989, defendendo o direito da Índia dispor de bombas nucleares.

Atualmente, o sereno pacifista da grande mídia recebe a ajuda financeira de outro braço da CIA, a National Endowment for Democracy (Dotação Nacional para a Democracia), órgão criado na administração Reagan em 1984 que subsidia ações de interesse dos EUA mundo afora, como por exemplo as que derrubaram os governos da ex-Iugoslávia, em 2002, Geórgia, em 2004 e Ucrânia, em 2005. Agora sabemos como são financiadas e lançadas no mercado editorial as obras pacifistas do Dalai-Lama.

Por fim, não bastasse ter vencido o Prêmio Nobel da Paz em 1989, o Dalai-Lama, foi condecorado com a Medalha de Ouro do Congresso dos EUA pelo presidente George Walker Bush, a maior condecoração civil que alguém pode receber nos EUA. Ao ser condecorado, disse que ainda era muito cedo para dizer se a guerra no Iraque foi um erro ou não.


Frente e verso da medalha recebida pelo Dalai Lama

Dados, fatos e fotos, nos resta questionar o conceito de paz a nós atribuído pela grande mídia, bem como pesquisar a fundo quais são os personagens que ela nos intitula pacíficos, cabendo, após esse exame, decidirmos ou não se continuaremos filiados aos conceitos da grande mídia e por quê. Talvez não seja uma máxima absoluta que “as aparências enganam”, mas podem enganar. Muitos pacifistas da grande mídia não passam, na verdade, de lobos fantasiados de cordeiros.


Dalai-Lama exibe à imprensa a honraria
recebida do congresso estadunidense,
ao lado do presidente dos EUA, George W. Bush... que coisa, não?


Lucas Rafael Chianello, além da grande mídia.

domingo, 17 de fevereiro de 2008

O QUE DE TÃO COMUM EXISTE EM NOSSO SENSO COMUM?

Por João Vinicius Carvalho Guimarães

Quem ou o que é culpado pela miséria? Pela fome? Pelo desemprego? Pela corrupção?

Dentro do nosso famigerado senso comum teremos uma resposta quase que consensual: a culpa é do governo! Corruptos! Ladrões! Mercenários!

Ao analisar este senso comum, considerando o que se diz, porque se diz e como se diz, podemos explicar com maior clareza o que faz com que este senso comum seja tão comum assim.

Senso comum é uma primeira compreensão que temos de mundo ou das coisas (no último caso, quase sempre a única). É passado pela tradição ou adquirido pelas nossas experiências atuais, ou seja, conhecimentos adquiridos mais recentemente.

Ora, sabemos que a tradição a níveis de consciência política da população deixa tudo a desejar e a maior fonte de conhecimento da atualidade, a mídia, se aproveita exatamente disso para injetar suas verdades, manipular mesmo! Se as mentes são manipuladas e manipuláveis, antes de falar de senso comum estamos falando em, no mínimo, má fé. E quem são esses manipuladores e manipuláveis? Eu os classifiquei em quatro grupos.

Em primeiro lugar, quando escutamos tal produto da manipulação alheia de uma pessoa de classe baixa, aquela desprovida da informação necessária por sua condição social e, indagamos em que ela se baseia para fundamentar tal opinião (sobre a política), ela vai dizer que os jornais estão sempre noticiando esses escândalos, atos de corrupção, crises no governo e o diabo a quatro. Confia-se cegamente em tudo o que diz o Jornal Nacional. Devo lembrar também que existem pessoas em pior situação, as que não tem opinião nenhuma, às vezes nem acesso à tv e portanto nenhuma possibilidade de opinar sobre o assunto.

Quando o alvo é uma parcela da classe média, que no geral é a parcela da população mais duramente afetada pelos impostos (reconheçamos), vemos como mecanismo de autodefesa manifestações rancorosas, arrogância e até preconceito contra membros do governo e também a movimentos populares que também lutam por melhores condições de vida. São os de origem humilde que subiram um degrau na pirâmide social, aspiram alcançar a riqueza (alguns até conseguem) mas continuam com a mesma mentalidade da de quando eram pobres, só que agora se acham superiores àqueles. Sua arrogância, ignorância e agressividade chegam no ápice que escutamos declarações do tipo: “subi na vida com o meu próprio esforço, trabalho 14 horas por dia, nunca precisei de ninguém pra me ajudar, nem do governo”. E ainda arrematam: “esses vagabundos que são sustentados pela gente que trabalha (só por que pagam impostos) precisam tomar vergonha na cara e trabalhar!” Como se fosse fácil arrumar um emprego ou mesmo uma dignidade hoje em dia.. São ferrenhos defensores da propriedade privada e costumam agir com brutalidade quando confrontados com diferentes formas de pensamento.

Um terceiro grupo é também pertencente à classe média, formadas por pessoas menos reacionárias e mais instruídas, pois, lêem livros, estão por dentro dos acontecimentos, freqüentam ou já freqüentaram algum dia a universidade, se, mais velhos, talvez um dia tenham sido revolucionários e hoje não passam de conformistas. Reconhecem o papel do governo e sabem que ele não é o único responsável pelas mazelas do país. O problema é que o conforto, a tranqüilidade e a segurança de uma vida sem grandes atribulações são impedimentos para que se saia de sua inércia de um mundo aconchegante.

O quarto e último grupo classificável nos parâmetros deste texto é formado por quem se beneficia diretamente de todo esse processo de lavagem cerebral nas demais camadas sociais. É o típico “dono da bola”, do tipo “se não for do meu jeito não tem jogo” São a maioria dos 10% da população que controla a maior parte das riquezas do país. Assim como a camada anterior, sabe perfeitamente que não se trata apenas de culpar o governo pelas mazelas sociais. Porém, embebidos por altas doses de descaramento e cinismo fazem coro a algo que não acreditam (ou são tão obcecados que querem acreditar) que seja verdade fazendo coro às diversas reclamações ao dizerem que estão cansados de tanta impunidade, falta de ética e outras ladainhas.

Além de manipular mentes, arquitetar planos mirabolantes em busca da produtividade e do lucro, gerando inconsequentemente a espoliação do trabalhador não se importam com quem esteja no caminho O negócio é passar por cima. Cansei! Cansei do quê, cara pálida?

É lógico que toda regra tem sua exceção, existem sim, pessoas comprometidas com a mudança do paradigma em todas as classes. Também não vejo problema em se reclamar de uma situação grave como a que sempre atravessa nosso país. É direito, é dever. Porém, desde que seja feito com o mínimo de coerência e racionalidade. E, da forma como é feito, lembro-me de vovó dizendo: é o mesmo que cagar e sentar em cima do rabo. Fala-se algo e pratica-se outro.

Outro problema é que quanto mais alto o nível social da crítica, mais nos encontramos encurralados diante de duas únicas opções: ou a falta de conhecimento da população é generalizada (que em partes é verdade) ou nos vemos diante de uma postura contraditória, cínica e até mesmo imoral, cujo seu antônimo é utilizado freqüentemente pelos setores mais conservadores e retrógrados da sociedade.

Também pudera: Desde criancinhas somos habituados a essa vida. Nossos pais trabalham o dia inteiro. Daí ficamos ou com a babá, ou com o irmão mais velho, ou na creche ou ainda na companhia da televisão. Na escola, a prioridade é o pragmatismo de uma vida voltada ao Deus mercado. Crescemos em meio à uma competição sem fim em que nos preocupamos de nos mostrar aos outros, em ser iguais aos outros como numa linha de montagem de uma fábrica de automóveis: cada vez menos humanidade, cada vez mais parafernálias e um produto final que modela ideais e comportamentos.

Não somos instigados a ter opinião própria, ela é que nos tem. Se por um acaso uma ovelha se desgarra do rebanho, tem de passar grande parte de sua vida a se desvencilhar de um modelo do qual se encontra viciado e, até que organize suas idéias, corre sério risco de se tornar um frustrado com a realidade, como no nosso terceiro grupo, tornando-se um ex-militante da justiça social e hoje um entusiasta da social democracia, na ilusão de se poder conciliar um capitalismo cada vez mais agressivo com uma tímida melhora das condições de vida da população de baixa renda.

Transparência política, honestidade e comprometimento dos políticos? Melhor educação, saúde e cultura pro povão? Maior participação na vida política do país? Claro!

Culpar nossa pesada herança histórica? Culpar a falta de educação que vem em sua conseqüência? Só isso não adianta.

O que fazer então? Se existisse uma fórmula mágica para mudar tudo num segundo, certamente seria muito mais fácil, óbvio. A sociedade não muda de uma hora pra outra, o processo é longo e talvez nem poderemos acompanhá-lo. E por isso devemos parar e nos conformar? O caminho também não é esse. Não se pode mudar o mundo, mas podemos mudar o nosso mundo. Papo de ONG? Não sei. Mas então: porque não começar? Só sei que, criticar é preciso, mas agir é necessário.

João Vinicius Carvalho Guimarães é professor de Filosofia e História dos ensinos fundamental e médio, além de cursinho pré-vestibular comunitário, em Poços de Caldas (MG).

PIG X MÍDIA ALTERNATIVA

Por Hudson Luiz

Começa a surgir na grande imprensa e no chamado PIG um movimento orquestrado com o intuito de desmoralizar, desqualificar e marginalizar aquilo que hoje vem sendo chamado de mídia alternativa e que aos poucos ganha corpo. Essa mídia alternativa, blogs e sites com conteúdo político independente, no geral se contrapõe à mídia controlada pelo grande capital, a mídia como puro e mero comércio e não como formadora de opinião e/ou utilidade pública. Alguns jornalistas pagos sobejamente para dizer ou escrever o que seus patrões querem, iniciaram essa semana a ofensiva contra esses espaços livres de influência e pressões comerciais dentro da Internet, criticando seu conteúdo. Parece ser sintomático essa atitude depois que o Movimento dos Sem Mídia – liderado pelo blogueiro Eduardo Guimarães – ter tomado a iniciativa de apresentar ao Ministério Público uma denúncia de atentado à Saúde Pública pelos meios de comunicação ao fazerem uma campanha alarmista incitando os cidadãos a se vacinarem contra a febre amarela "fossem de onde fossem" e "antes que fosse tarde".

Mais o PIG se viu, ainda que de forma branda, desgastado com as denuncias sobre cartões corporativos do governo federal, enquanto o governo paulista na atual gestão usa do mesmo tipo de cartão e gastou mais que o governo federal, inclusive em saques feitos na boca do caixa. Só divulgaram o SerraCard depois que o site de Paulo Henrique Amorim denunciou e o assunto começou a repercutir e no medo de, aí sim, uma acachapante desmoralização caso se calassem.

No caso dos cartões corporativos, como em outros, não se trata aqui de uma disputa entre peitstas e tucanos para saber quem tunga mais o dinheiro do povão, mas sim de colocar o pingo nos is. É assim que uma imprensa livre de verdade deveria ser em qualquer democracia – pelo menos no plano filosófico – dar a todos os mesmos direitos, fiscalizar a coisa pública e o gerenciamento do Estado, mas aqui no Brasil – digamos a verdade e não fiquemos nos lamentando achando que isso é uma jabuticaba, que só acontece no Brasil, em quase todo o mundo é assim – a imprensa só investiga o que lhe interessa, ou melhor, o que interessa aos seus donos. Um exemplo que salta aos olhos foi o espaço dado aos fariseus tucanos para explicações sobre sua suposta má conduta; espaço inversamente oposto ao que se dá ao PT e seus aliados quando estoura alguma denuncia fantasiosa ou digna de conhecimento do público. Mais e pior, a TV Cultura de SP, uma TV pública que nos últimos 13 anos foi aparelhada pelos sucessivos governos tucanos, foi censurada e não disse uma única palavra sobre o SerraCard. (Esse caso de censura na TV Cultura é mais grave do que se imagina, pois denota-se aí um verdadeiro amordaçamento da imprensa, ademais trata-se de um veículo de comunicação que na realidade é uma TV pública. E a Cultura se diz: exemplo de TV pública. Imagine se isso acontecesse na Venezuela!!!).

Todavia o PIG vem caindo em descrédito muito por causa da sua própria atuação nos últimos tempos como agente golpista e porta-voz de uma direita reacionária e preconceituosa, mas também por conta da popularização da informática e a atuação crescente de espaços mais democráticos na Internet.

Nessa guerra que o PIG inicia contra a mídia alternativa chama atenção a postura do colunista, Clovis Rossi da Folha de SP – e que por uma dessas ironias do destino é casado com a presidente do PSDB Mulher –. Esse colunista chegou a chamar os blogueiros críticos da grande mídia de debilóides do lulo-petismo. Ficarei apenas com a carapuça – que mesmo assim não me serviu – de debiloide, uma vez que dispenso a alcunha de lulo-peitsta, não porque considero isso menos ou mais ofensivo do que ser puramente um debilóide e sim porque não compreendo totalmente o que possa ser este ultimo termo inventado pelo subordinado à família Frias.

Entre meus amigos muitos possuem o seu próprio blog e falando da forma objetiva e clara não vejo neles, ou em mim e meus parcos leitores, nenhum indício de nos tratarmos de debilóides ou algo que o valha. Todavia, isto sim, penamos hoje em dia por estarmos confinados a uma "ditadura do pensamento único", e como em toda a ditadura que se preze, esta também tenta desqualificar àqueles que não comungam de seus interesses, que não seguem sua cartilha ou não se fingem de cegos e guardam para si sua indignação perante esse poder podre e carcomido. A imprensa tupiniquim chafurda no "mar de lama" – sai pra lá Carlos Lacerda –, posa como legitimo fariseu defensor da democracia e se unge como guardiã da verdade absoluta – verdade ditada por ela mesma . Me pergunto quem são os verdadeiros debilóides nessa história?

Seriam os extratos mais baixos de nossa sociedade que assistem ao Jornal Nacional e as telenovelas maniqueístas? A chamada classe média, ou pequena burguesia, que se sente bem informada por ler os editoriais do Estadão ou da Folhona; que embasbacadas batem palmas quando Arnaldo Jabor tece comentários esdrúxulos e patéticos – e sentem orgulho por “acharem que entenderam” aquilo que Jabor disse –; e que clamam por ética e justiça quando no fim de semana defrontam com a capa de Veja? No primeiro grupo, privados de tantas as coisas e que vendem sua força de trabalho por ínfimos reais por hora – quando não centavos – não diria que se tratam de debilóides, mas sim de ignorantes. Ignorantes no sentido de não ter instrução porque a estrutura do sistema assim os quer. Já o segundo é debilóide porque muitas vezes, pode-se dizer sempre, não passam de massa de manobra das elites e aceita esse papel sem resmungar, pois o conforto do seu lar e a certeza de haver pessoas em condição econômica e social bem pior, os leva a agir de tal forma que não se reconhecem como explorados e não burgueses.

Ainda há um outro grupo formado pelas elites dominantes, os verdadeiros burgueses donos dos meio de produção e hoje dos de comunicação também. Os indivíduos desse grupo não podem ser alcunhados de debilóides, pois esses se favorecem do sistema tal como é e está. São defensores do "staus-quo", porque esse foi fundado e definido por eles próprios. E para legitimar esse estado de coisas, clamam por seus "cães de guarda", ou seja os pseudo-intelectuais, aqueles os quais Sartre já havia nos advertido.

Aqui vão alguns links de espaços na grande rede que gostaria de compartilhar com vocês:

http://www.exercitocomunista.blogspot.com/

Do nosso colaborador Renan Nunes.

http://www.viomundo.com.br/

Um dos melhores sites de jornalismo do Brasil, dirigido por Luis Carlos Azenha.

http://www.cartamaior.com.br/

Figurinha marcada entre os que procuram alternativas a grande mídia.

http://www.alemdagrandemidia.blogspot.com/

Do camarada poços-caldense e companheiro de debates e lutas populares Lucas Chianello.

http://www.correiocidadania.com.br/

Grande fonte de informação e alternativa ao PIG.

http://www.revistaforum.com.br/sitefinal/blog/

Aqui você acessa o Blog do jornalista Renato Rovai e se quiser pega um link pra Revista Fórum.

http://carosamigos.terra.com.br/

Site da revista de esquerda mais conhecida do Brasil.

http://edu.guim.blog.uol.com.br/

Blog de Eduardo Guimarães, idealizador do Movimento dos Sem Mídia.

http://pagina12.com.ar/

Site da publicação de esquerda de los hermanos argentinos. Bom pra se ter uma visão mais ampla da política latino-americana.


Hudson Luiz é cientista social formado na Fundação de Ensino Octávio Bastos (FEOB), de São João da Boa Vista (SP).

sábado, 5 de janeiro de 2008

FELIZ ANO NOVO, FELIZ ANIVERSÁRIO

Sequer recordo de ver esta data nos livros de história antes de ingressar na faculdade, mas o dia 1º de janeiro não é somente a comemoração do réveillon. Esta palavra, originária do francês réveiller, significa despertar. Obviamente, quando comemoramos o réveillon, comemoramos o despertar do novo ano que se inicia. No dia 1º de janeiro de 1959, um povo liderado por um jovem advogado, com o nome de Fidel Alejandro Castro Ruz, e um jovem médico argentino, Ernesto Guevara de la Serna, despertava o início de uma nova era na história do Caribe, das Américas e até mesmo da própria humanidade.

Um fato pouco conhecido é que o primeiro país a reconhecer a Revolução Cubana foram os Estados Unidos, a ponto de Fidel ter seu nome ovacionado nas ruas de Nova Iorque após o triunfo da revolução. Ao assumir o poder, Fidel proclamava a seu povo que Cuba seria uma nova versão da ágora grega, mas baseada na democracia dos trabalhadores. Porém, como muitas vezes vemos as coisas parecerem-se boas demais para serem verdades, quando em 1961 Fidel declarou que a Revolução Cubana se basearia nos princípios do marxismo-leninismo, começava aquele que talvez viesse a ser o maior conflito político da história das Américas. John Keneddy, presidente dos Estados Unidos, declarava que nada tinha contra a Revolução Cubana, a não ser o fato dela ser entregue aos comunistas.

O fato é que, dentro de um contexto de Guerra Fria, com a intenção de se construir um modelo socialista que acabasse com as aberrações denunciadas pelas estatísticas sociais em Cuba antes da revolução, não houve outra opção para a Ilha a não ser se aliar a URSS, ainda que Che Guevara tivesse grande afinidade com o socialismo de Pequim e Fidel se tornasse um grande articulador dos países não-alinhados junto com o Marechal Tito, da Iugoslávia.

Inevitavelmente, a guerra política entre a Revolução Cubana e o imperialismo estadunidense tomaria espaço nas manchetes da grande mídia ocidental. Basta ver uma imagem de Fidel num jornal com inúmeros anúncios de grandes corporações que na legenda da imagem vemos escritas as mesmas palavras: “O ditador cubano Fidel Castro, ect, etc, etc”.

Conforme escreveu o jornalista Flavio Gomes semana passada em seu blog, a grande mídia ocidental é muito engraçada ao estabelecer critérios para alcunhar alguém de ditador. Lembro que há um ano atrás e alguns dias (para mais ou para menos), eu estava na casa dos meus avós, nos primeiros minutos da madrugada, jogando baralho com a minha avó. Meu avô estava deitado, merecidamente descansando, enquanto a TV permanecia ligada. Eis que então o veículo oficial de comunicação da ditadura militar anuncia a execução de Saddam Hussein, o ditador do Iraque, o mesmo ditador que eles financiaram para tentar derrubar o governo do Aiatolá Komheini, em 1979.

Flavio Gomes tem razão no referente a falta de critérios. Para termos uma idéia, recentemente no Brasil vivemos a era dos escândalos. Na verdade, pagamos o preço por não termos a consciência política necessária para impedir que continue se alastrando diariamente uma cultura política que sempre existiu desde que a Família Real Portuguesa desembarcou aqui: a corrupção, o uso do público para fins privados.

Por exemplo: elegemos um deputado federal. Digamos que durante a campanha esse deputado federal cometeu um crime eleitoral. A Câmara dos Deputados instala uma CPI e esse deputado não é cassado. Pergunta-se: qual o mecanismo tem a população de tirar o mandato desse parlamentar? Em Cuba, há como. Semestralmente, o parlamentar deve prestar contas à população da província onde foi eleito. Caso sua base eleitoral não esteja satisfeita com o seu trabalho, ela revoga o mandato.

Também no Brasil vemos deputados e senadores tornarem-se congressistas profissionais. Usam da alta grana proporcionada pelos vencimentos de um congressista para que na época de campanha eleitoral inúmeras valas sejam entupidas com materiais de campanha, além de usarem os pobres como eleitores doando cesta básica. Assim, perpetuam-se em mandatos. Em Cuba, a cada eleição para a Assembléia Nacional Popular, metade dela tem que ser mudada. Detalhe: lá o parlamentar não recebe salário. Ah! Mas o Fidel está no poder a 49 anos! Errado, Fidel é membro do Conselho de Estado e não tem poder para nomear um ministro sequer, como ele mesmo disse numa entrevista em vídeo para o cineasta Oliver Stone.

Nos países ocidentais, adeptos da democracia representativa, o povo vota nos parlamentares que o colocam à mercê das decisões políticas. Em Cuba, durante o período compreendido entre setembro e outubro de 2007, os fóruns sociais e econômicos colheram aproximadamente 1,3 milhão de propostas para serem iniciadas reformas no socialismo cubano. Mais de cinco milhões de pessoas participaram dos fóruns.

Nos países capitalistas ocidentais, adeptos da democracia liberal representativa, o cidadão que não tem um plano de saúde privado, mesmo num país de primeiro mundo, está fadado ao sucateamento do serviço público, pois para o governante, serviço bom é aquele prestado pela infalível iniciativa privada. Em Cuba, qualquer cidadão é bem tratado nos hospitais públicos.

Nos países ocidentais de primeiro mundo, a educação é uma conquista de mercado. Em Cuba, é um direito, um serviço obrigado a ser prestado pelo Estado. Resultado? Não há analfabetos em Cuba e não o bastante, o método “Si, yo puedo” (Sim, eu posso) alfabetiza inúmeros de latino-americanos.

Por fim, nesse país de tecnologia atrasada, de carros e prédios velhos, produtor monocultural de cana-de-açúcar, a economia em 2005 e 2006 cresceu em volta dos 11%. Em 2007, 7,5%. Era para ser 10%, não fossem as inflações petrolíferas e alimentícias.

Tudo isso só é possível hoje porque o povo desse país, naquele 1º de janeiro de 1959, optou por comemorar o “despertar” daquele ano mudando os rumos de sua história. A esse povo, desculpas pelos quatro dias de atraso, mas ainda sim, feliz aniversário por sua revolução!

Lucas Rafael Chianello, além da grande mídia.

PS: acabo de receber a informação do amigo Hudson Luiz, com quem escrevi os dois últimos artigos do blog, que a taxa da mortalidade infantil em Cuba no ano de 2007 foi menor que nos EUA. Mais um motivo para os cubanos comemoraram o aniversário da revolução.

quinta-feira, 3 de janeiro de 2008

UMA CONCEPÇÃO EQUIVOCADA SOBRE OS FEITOS DA SUB-RAÇA

Após a derrota da reforma constitucional venezuelana, os holofotes da grande mídia voltaram-se contra outro processo constituinte democrático-popular: a Bolívia, que historicamente se caracteriza pela espoliação de suas riquezas minerais, ora por parte da metrópole espanhola, ora por parte do imperialismo britânico ou estadunidense, ora por guerras territoriais.

Primeiramente, dois séculos e algumas décadas de exploração colonial desenfreada levaram a Bolívia a se ver privada de uma de suas grandes riquezas, a prata de Potosí. A coroa espanhola exauriu sem piedade este minério para pagar suas dívidas com banqueiros genoveses, alemães e flamencos. Poucos sabem que se hoje Alemanha, Itália e Espanha são países de primeiro mundo, muito disso se deve a prata de Potosí. Em contrapartida, a Bolívia teve como lucro aproximadamente 70% mortos os mineiros que trabalhavam nas futuras montanhas ocas onde a prata de Potosí se encontrava.

No século XIX, a perda da Guerra do Pacífico para o Chile levou a Bolívia ver todo o seu salitre não estar mais em seu território. Não o bastante, lá se foi o estanho no século XX, vendido a preço de banana para compradores internacionais, mesmo século em que a Bolívia perderia o território do Chaco para o Paraguai na guerra entre os dois países de 1932 a 1935. Quase no final deste século, o caos tomou conta da Bolívia quando o povo decidiu em não dar qualquer passo atrás para impedir a privatização da água. Felizmente conseguiram.

Entretanto, a Bolívia ainda possuía – e possui – outra grande riqueza mineral: as suas reservas de gás natural, esse que por um acordo firmado entre os governos boliviano, presidido por Gonzalo Sanchez de Lozada e brasileiro, presidido por FFHH, passou a ser quase totalmente controlado pela Petrobrás, no final da década de 1990.

Aqui vale um adendo. A Petrobrás, no mesmo governo FFHH, deixou de ser uma empresa estatal para se tornar uma sociedade de economia mista. Conforme o estatuto da Petrobrás, § Único do art 1º, a União detém, no mínimo, 50% mais um do controle acionário.

Todos os fatos acima citados, renderam ao “país que quer existir”, conforme diz Eduardo Galeano, o título de país mais pobre da América do Sul.

O SURGIMENTO DE UMA LIDERANÇA

Embora a imensa maioria étnica da Bolívia seja indígena, cerca de 70% da população, os indígenas (aqui uma informação pouco divulgada) sempre foram tratados como sub-raça, sendo o país governado por uma elite branca “europeizada”.

Além disso, os EUA, na sua suposta guerra contra o narcotráfico, baixaram diversas sanções econômicas contra o plantio da coca, enganados ao pensar que a coca é usada para fins de narcotráfico na Bolívia. Ela, na verdade, é parte de uma cultura milenar boliviana, pois é necessário que seja mascada nos lugares de altitude elevada para que o corpo humano suporte a pressão do ar rarefeito. Logo, é fonte de subsistência dos indígenas camponeses bolivianos.

É nesse contexto que surge a liderança de Evo Morales. Conscientes de que também não poderiam sofrer a espoliação do gás, os indígenas, liderados por Evo Morales, iniciam, no final de 2.003, uma série de paralisações por todo o país, culminando na derrubada de Gonzalo Sanchez de Lozada.

Ao assumir a presidência, Carlos Meza, uma continuação das práticas neoliberais de seu antecessor, prometeu a convocação da constituinte. Não cumpriu sua promessa, assistiu seu mandato ser tomado por uma enorme pressão popular e renunciou, sendo então convocada as eleições extraordinárias que deram a Evo Morales o papel histórico de primeiro presidente indígena boliviano.

Ao assumir o poder, Morales, apoiado pela imensa maioria indígena de seu país, em grande parte organizada no MAS (Movimiento al socialismo), nacionalizou o gás, impedindo a continuação de sua espoliação.

Muitos se opõem à atitude do presidente boliviano, entretanto, conforme mostramos nesse texto, ele, enquanto responsável por dirigir um país e consciente de sua história de espoliação de riquezas, não poderia se resumir à legalidade para fazer o quê de direito, ainda que a legalidade não lhe seja desfavorável. Um dos motivos pelos quais os mecanismos de direito internacional não foram provocados foi justamente esse, o reconhecimento de que, dentro das leis internacionais, Evo Morales não cometeu nenhuma irregularidade.

Essencialmente, o governo de Evo Morales é um governo socialista, pois visa construir a igualdade social a partir do protagonismo das classes sociais inferiores através do Estado. Morales mesmo já colocou que, ainda que alguns coloquem seu governo como socialista, ou comunista, ele é, acima de tudo, humanista.

No entanto, parece que Evo e o MAS, sem saberem, usaram de idéias do jovem Marx sobre o direito para promulgarem a nova Constituição boliviana. Para o jovem Marx, a verdadeira lei só a é quando “é a existência positiva da liberdade”. Sendo a Constituição a lei máxima de um país, finalmente a lei boliviana reconhecerá a liberdade da imensa maioria étnica de seu país tratada, durante séculos, como sub-raça.

Entretanto, os desafios ainda não acabaram. A “existência positiva da liberdade” do povo boliviano somente será concreta caso a maioria da população a aprove num referendo popular.

O reconhecimento da história de seu povo, aliado a uma Assembléia Constituinte com total respaldo popular mais a coerência política, concedem à Bolívia total legitimidade para que sejam feitas as mudanças necessárias dos rumos que este país tomou em sua história. A nós, politizados de todas as partes do mundo, cabe prestar a este povo a merecida solidariedade, sempre procurando analisar o todo dos acontecimentos, sem deixar presumir como verdadeiras as inverdades que a grande mídia atribui a um “índio maltrapilho”.

Lucas Rafael Chianello e Hudson Luiz, além da grande mídia.