sábado, 5 de janeiro de 2008

FELIZ ANO NOVO, FELIZ ANIVERSÁRIO

Sequer recordo de ver esta data nos livros de história antes de ingressar na faculdade, mas o dia 1º de janeiro não é somente a comemoração do réveillon. Esta palavra, originária do francês réveiller, significa despertar. Obviamente, quando comemoramos o réveillon, comemoramos o despertar do novo ano que se inicia. No dia 1º de janeiro de 1959, um povo liderado por um jovem advogado, com o nome de Fidel Alejandro Castro Ruz, e um jovem médico argentino, Ernesto Guevara de la Serna, despertava o início de uma nova era na história do Caribe, das Américas e até mesmo da própria humanidade.

Um fato pouco conhecido é que o primeiro país a reconhecer a Revolução Cubana foram os Estados Unidos, a ponto de Fidel ter seu nome ovacionado nas ruas de Nova Iorque após o triunfo da revolução. Ao assumir o poder, Fidel proclamava a seu povo que Cuba seria uma nova versão da ágora grega, mas baseada na democracia dos trabalhadores. Porém, como muitas vezes vemos as coisas parecerem-se boas demais para serem verdades, quando em 1961 Fidel declarou que a Revolução Cubana se basearia nos princípios do marxismo-leninismo, começava aquele que talvez viesse a ser o maior conflito político da história das Américas. John Keneddy, presidente dos Estados Unidos, declarava que nada tinha contra a Revolução Cubana, a não ser o fato dela ser entregue aos comunistas.

O fato é que, dentro de um contexto de Guerra Fria, com a intenção de se construir um modelo socialista que acabasse com as aberrações denunciadas pelas estatísticas sociais em Cuba antes da revolução, não houve outra opção para a Ilha a não ser se aliar a URSS, ainda que Che Guevara tivesse grande afinidade com o socialismo de Pequim e Fidel se tornasse um grande articulador dos países não-alinhados junto com o Marechal Tito, da Iugoslávia.

Inevitavelmente, a guerra política entre a Revolução Cubana e o imperialismo estadunidense tomaria espaço nas manchetes da grande mídia ocidental. Basta ver uma imagem de Fidel num jornal com inúmeros anúncios de grandes corporações que na legenda da imagem vemos escritas as mesmas palavras: “O ditador cubano Fidel Castro, ect, etc, etc”.

Conforme escreveu o jornalista Flavio Gomes semana passada em seu blog, a grande mídia ocidental é muito engraçada ao estabelecer critérios para alcunhar alguém de ditador. Lembro que há um ano atrás e alguns dias (para mais ou para menos), eu estava na casa dos meus avós, nos primeiros minutos da madrugada, jogando baralho com a minha avó. Meu avô estava deitado, merecidamente descansando, enquanto a TV permanecia ligada. Eis que então o veículo oficial de comunicação da ditadura militar anuncia a execução de Saddam Hussein, o ditador do Iraque, o mesmo ditador que eles financiaram para tentar derrubar o governo do Aiatolá Komheini, em 1979.

Flavio Gomes tem razão no referente a falta de critérios. Para termos uma idéia, recentemente no Brasil vivemos a era dos escândalos. Na verdade, pagamos o preço por não termos a consciência política necessária para impedir que continue se alastrando diariamente uma cultura política que sempre existiu desde que a Família Real Portuguesa desembarcou aqui: a corrupção, o uso do público para fins privados.

Por exemplo: elegemos um deputado federal. Digamos que durante a campanha esse deputado federal cometeu um crime eleitoral. A Câmara dos Deputados instala uma CPI e esse deputado não é cassado. Pergunta-se: qual o mecanismo tem a população de tirar o mandato desse parlamentar? Em Cuba, há como. Semestralmente, o parlamentar deve prestar contas à população da província onde foi eleito. Caso sua base eleitoral não esteja satisfeita com o seu trabalho, ela revoga o mandato.

Também no Brasil vemos deputados e senadores tornarem-se congressistas profissionais. Usam da alta grana proporcionada pelos vencimentos de um congressista para que na época de campanha eleitoral inúmeras valas sejam entupidas com materiais de campanha, além de usarem os pobres como eleitores doando cesta básica. Assim, perpetuam-se em mandatos. Em Cuba, a cada eleição para a Assembléia Nacional Popular, metade dela tem que ser mudada. Detalhe: lá o parlamentar não recebe salário. Ah! Mas o Fidel está no poder a 49 anos! Errado, Fidel é membro do Conselho de Estado e não tem poder para nomear um ministro sequer, como ele mesmo disse numa entrevista em vídeo para o cineasta Oliver Stone.

Nos países ocidentais, adeptos da democracia representativa, o povo vota nos parlamentares que o colocam à mercê das decisões políticas. Em Cuba, durante o período compreendido entre setembro e outubro de 2007, os fóruns sociais e econômicos colheram aproximadamente 1,3 milhão de propostas para serem iniciadas reformas no socialismo cubano. Mais de cinco milhões de pessoas participaram dos fóruns.

Nos países capitalistas ocidentais, adeptos da democracia liberal representativa, o cidadão que não tem um plano de saúde privado, mesmo num país de primeiro mundo, está fadado ao sucateamento do serviço público, pois para o governante, serviço bom é aquele prestado pela infalível iniciativa privada. Em Cuba, qualquer cidadão é bem tratado nos hospitais públicos.

Nos países ocidentais de primeiro mundo, a educação é uma conquista de mercado. Em Cuba, é um direito, um serviço obrigado a ser prestado pelo Estado. Resultado? Não há analfabetos em Cuba e não o bastante, o método “Si, yo puedo” (Sim, eu posso) alfabetiza inúmeros de latino-americanos.

Por fim, nesse país de tecnologia atrasada, de carros e prédios velhos, produtor monocultural de cana-de-açúcar, a economia em 2005 e 2006 cresceu em volta dos 11%. Em 2007, 7,5%. Era para ser 10%, não fossem as inflações petrolíferas e alimentícias.

Tudo isso só é possível hoje porque o povo desse país, naquele 1º de janeiro de 1959, optou por comemorar o “despertar” daquele ano mudando os rumos de sua história. A esse povo, desculpas pelos quatro dias de atraso, mas ainda sim, feliz aniversário por sua revolução!

Lucas Rafael Chianello, além da grande mídia.

PS: acabo de receber a informação do amigo Hudson Luiz, com quem escrevi os dois últimos artigos do blog, que a taxa da mortalidade infantil em Cuba no ano de 2007 foi menor que nos EUA. Mais um motivo para os cubanos comemoraram o aniversário da revolução.

Um comentário:

  1. Gostei muito do texto.
    Parabéns pela iniciativa de fazer um blog com conteúdo crítico. Na rede há muita informação, porém a maioria com pouca ou nenhuma qualidade.

    Parabéns mais uma vez.
    Gorete - Itajubá - MG

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