domingo, 17 de fevereiro de 2008

O QUE DE TÃO COMUM EXISTE EM NOSSO SENSO COMUM?

Por João Vinicius Carvalho Guimarães

Quem ou o que é culpado pela miséria? Pela fome? Pelo desemprego? Pela corrupção?

Dentro do nosso famigerado senso comum teremos uma resposta quase que consensual: a culpa é do governo! Corruptos! Ladrões! Mercenários!

Ao analisar este senso comum, considerando o que se diz, porque se diz e como se diz, podemos explicar com maior clareza o que faz com que este senso comum seja tão comum assim.

Senso comum é uma primeira compreensão que temos de mundo ou das coisas (no último caso, quase sempre a única). É passado pela tradição ou adquirido pelas nossas experiências atuais, ou seja, conhecimentos adquiridos mais recentemente.

Ora, sabemos que a tradição a níveis de consciência política da população deixa tudo a desejar e a maior fonte de conhecimento da atualidade, a mídia, se aproveita exatamente disso para injetar suas verdades, manipular mesmo! Se as mentes são manipuladas e manipuláveis, antes de falar de senso comum estamos falando em, no mínimo, má fé. E quem são esses manipuladores e manipuláveis? Eu os classifiquei em quatro grupos.

Em primeiro lugar, quando escutamos tal produto da manipulação alheia de uma pessoa de classe baixa, aquela desprovida da informação necessária por sua condição social e, indagamos em que ela se baseia para fundamentar tal opinião (sobre a política), ela vai dizer que os jornais estão sempre noticiando esses escândalos, atos de corrupção, crises no governo e o diabo a quatro. Confia-se cegamente em tudo o que diz o Jornal Nacional. Devo lembrar também que existem pessoas em pior situação, as que não tem opinião nenhuma, às vezes nem acesso à tv e portanto nenhuma possibilidade de opinar sobre o assunto.

Quando o alvo é uma parcela da classe média, que no geral é a parcela da população mais duramente afetada pelos impostos (reconheçamos), vemos como mecanismo de autodefesa manifestações rancorosas, arrogância e até preconceito contra membros do governo e também a movimentos populares que também lutam por melhores condições de vida. São os de origem humilde que subiram um degrau na pirâmide social, aspiram alcançar a riqueza (alguns até conseguem) mas continuam com a mesma mentalidade da de quando eram pobres, só que agora se acham superiores àqueles. Sua arrogância, ignorância e agressividade chegam no ápice que escutamos declarações do tipo: “subi na vida com o meu próprio esforço, trabalho 14 horas por dia, nunca precisei de ninguém pra me ajudar, nem do governo”. E ainda arrematam: “esses vagabundos que são sustentados pela gente que trabalha (só por que pagam impostos) precisam tomar vergonha na cara e trabalhar!” Como se fosse fácil arrumar um emprego ou mesmo uma dignidade hoje em dia.. São ferrenhos defensores da propriedade privada e costumam agir com brutalidade quando confrontados com diferentes formas de pensamento.

Um terceiro grupo é também pertencente à classe média, formadas por pessoas menos reacionárias e mais instruídas, pois, lêem livros, estão por dentro dos acontecimentos, freqüentam ou já freqüentaram algum dia a universidade, se, mais velhos, talvez um dia tenham sido revolucionários e hoje não passam de conformistas. Reconhecem o papel do governo e sabem que ele não é o único responsável pelas mazelas do país. O problema é que o conforto, a tranqüilidade e a segurança de uma vida sem grandes atribulações são impedimentos para que se saia de sua inércia de um mundo aconchegante.

O quarto e último grupo classificável nos parâmetros deste texto é formado por quem se beneficia diretamente de todo esse processo de lavagem cerebral nas demais camadas sociais. É o típico “dono da bola”, do tipo “se não for do meu jeito não tem jogo” São a maioria dos 10% da população que controla a maior parte das riquezas do país. Assim como a camada anterior, sabe perfeitamente que não se trata apenas de culpar o governo pelas mazelas sociais. Porém, embebidos por altas doses de descaramento e cinismo fazem coro a algo que não acreditam (ou são tão obcecados que querem acreditar) que seja verdade fazendo coro às diversas reclamações ao dizerem que estão cansados de tanta impunidade, falta de ética e outras ladainhas.

Além de manipular mentes, arquitetar planos mirabolantes em busca da produtividade e do lucro, gerando inconsequentemente a espoliação do trabalhador não se importam com quem esteja no caminho O negócio é passar por cima. Cansei! Cansei do quê, cara pálida?

É lógico que toda regra tem sua exceção, existem sim, pessoas comprometidas com a mudança do paradigma em todas as classes. Também não vejo problema em se reclamar de uma situação grave como a que sempre atravessa nosso país. É direito, é dever. Porém, desde que seja feito com o mínimo de coerência e racionalidade. E, da forma como é feito, lembro-me de vovó dizendo: é o mesmo que cagar e sentar em cima do rabo. Fala-se algo e pratica-se outro.

Outro problema é que quanto mais alto o nível social da crítica, mais nos encontramos encurralados diante de duas únicas opções: ou a falta de conhecimento da população é generalizada (que em partes é verdade) ou nos vemos diante de uma postura contraditória, cínica e até mesmo imoral, cujo seu antônimo é utilizado freqüentemente pelos setores mais conservadores e retrógrados da sociedade.

Também pudera: Desde criancinhas somos habituados a essa vida. Nossos pais trabalham o dia inteiro. Daí ficamos ou com a babá, ou com o irmão mais velho, ou na creche ou ainda na companhia da televisão. Na escola, a prioridade é o pragmatismo de uma vida voltada ao Deus mercado. Crescemos em meio à uma competição sem fim em que nos preocupamos de nos mostrar aos outros, em ser iguais aos outros como numa linha de montagem de uma fábrica de automóveis: cada vez menos humanidade, cada vez mais parafernálias e um produto final que modela ideais e comportamentos.

Não somos instigados a ter opinião própria, ela é que nos tem. Se por um acaso uma ovelha se desgarra do rebanho, tem de passar grande parte de sua vida a se desvencilhar de um modelo do qual se encontra viciado e, até que organize suas idéias, corre sério risco de se tornar um frustrado com a realidade, como no nosso terceiro grupo, tornando-se um ex-militante da justiça social e hoje um entusiasta da social democracia, na ilusão de se poder conciliar um capitalismo cada vez mais agressivo com uma tímida melhora das condições de vida da população de baixa renda.

Transparência política, honestidade e comprometimento dos políticos? Melhor educação, saúde e cultura pro povão? Maior participação na vida política do país? Claro!

Culpar nossa pesada herança histórica? Culpar a falta de educação que vem em sua conseqüência? Só isso não adianta.

O que fazer então? Se existisse uma fórmula mágica para mudar tudo num segundo, certamente seria muito mais fácil, óbvio. A sociedade não muda de uma hora pra outra, o processo é longo e talvez nem poderemos acompanhá-lo. E por isso devemos parar e nos conformar? O caminho também não é esse. Não se pode mudar o mundo, mas podemos mudar o nosso mundo. Papo de ONG? Não sei. Mas então: porque não começar? Só sei que, criticar é preciso, mas agir é necessário.

João Vinicius Carvalho Guimarães é professor de Filosofia e História dos ensinos fundamental e médio, além de cursinho pré-vestibular comunitário, em Poços de Caldas (MG).

3 comentários:

  1. "...Precisamos reafirmar a tese marxista sobre Feuerbach: deixar de interpretar e sim transformar o mundo. Leia aqui um modo diferente de interpretação dos fatos atuais..."

    O triste é perceber que você não consegue escrever quatro linhas sem se contradizer. Arre!

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  2. Primeiramente, o anonimato é o refúgio dos covardes.

    Segundo, quando Marx fala em interpretação na tese sobre Feuerbach, ele não se opõe a ela, mas sim a se restringir somente a ela.

    Como posso me colocar como um agente de transformação repetindo os discursos da grande mídia? Nào basta eu querer transformar, eu preciso interpretar o que é passado para me opor ao discurso e aí sim partir para a transformação.

    Observe o contexto em que as palavras são empregadas. Se quiser, também, pára de encher o saco e vá ler o blog do Reinaldo Azevedo, lá tem bastante conteúdo reacionário pra você se deliciar.

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  3. João Vinicius Carvalho Guimarães31 de março de 2008 21:44

    Olá, anônimo tudo bem?
    Acho que a tese sobre Feuerbach foi colocada em meu texto da forma como você a interpreta, portanto não entendo a afirmação logo abaixo.

    De qualquer forma agradeço o comentário, mas gostaria de saber quais são as minhas contradições para que possa aprimorar as posições, conhecer novas e assim contribuir de alguma forma...
    Grande abraço

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