sábado, 29 de março de 2008

DALAI-LAMA: HOMEM DE PAZ, OU DE LAMA?

Situando

Nos últimos dias, a imprensa tem destacado, especialmente nas páginas esportivas, o conflito entre tibetanos e chineses às vésperas dos Jogos Olímpicos de Pequim. A princípio, atribui-se à China o ato oprimir militarmente os monges budistas moradores da província do Tibete, assim como é atribuída ao Senhor Tenzin Gyatzo, o 14ª Dalai-Lama, a imagem de homem de paz e serenidade, título especialmente sustentado pelo Prêmio Nobel da Paz a ele concedido em 1989. Em suma, o 14ª Dalai-Lama, exilado em Dharamsala, na Índia, é tratado como líder religioso e político de um povo supostamente oprimido por “chineses intolerantes”, como afirmava o personagem de Brad Pitt no filme Sete Anos no Tibete.


O Sr. Tenzin Gyatso,
reconhecido mundialmente
como o 14º Dalai-Lama: homem de paz?

Porém, como a grande mídia, escondida na falácia da imparcialidade, noticia somente aquilo que a convém, tornam-se necessários alguns esclarecimentos históricos, afinal, se analisarmos a fundo, o Sr. Tenzin Gyatso não parece ser esse homem de paz conforme a mídia e o senso comum tanto nos passam. Não se trata de lecionar história, mas sim buscar na história argumentos que sustentam teses.

O reino tibetano do Tubo foi formado no século VII d.C., quando dois descendentes e soberanos casaram-se com princesas da etnia han e então firmaram diversos acordos com o Império Chinês, vindo a acelerar o intercâmbio cultural entre ambos. No século XIII d.C., Marco Pólo, ao visitar a corte de Kublai Khan, imperador mongol da China, constatou que o Tibete era uma das doze províncias que a compunham. Desde a mesma data, nenhum país no mundo reconhece o Tibete como Estado soberano.



O lendário viajante italiano Marco Pólo

Com as Guerras do Ópio contra a Grã-Betanha, nos anos de 1839 a 1842, inicia-se na China um processo de tentativa de desmanche da sua soberania e do seu território. A Rússia czarista ocupou o norte mongol, criando a Mongólia Exterior, e o Japão ocupou a Manchúria, localizada no nordeste do país. Fragilizada com as Guerras do Ópio, o poderio militar inglês e o não controle de territórios, a China tornou-se praticamente uma colônia do Império Britânico, quando então é delegado ao poder político imperial controlar as relações exteriores do Tibete. Não o bastante, é assinado o Tratado de Lhasa (capital do Tibete), no qual a China, uma “semicolônia” britânica, é obrigada a pagar pesadas indenizações ao tesouro britânico, garantir acesso a rotas comerciais, estacionar tropas inglesas e instalar postos de correios e telegráficos.

A China torna-se uma república

Em 1911, a China torna-se uma república e o 13º Dalai-Lama admite a libertação do Tibete do jugo imperial. Todavia, Pequim declara que o Tibete integrava o território chinês, assim como Marco Pólo havia apontado há séculos. Com a morte do 13º Dalai-Lama, Tenzin Gyatso, o 14º, é conduzido ao posto aos seis anos de idade em 1935. Já consolidada enquanto república, a China viu os partidos nacionalista e comunista darem entre si uma trégua para conterem a invasão japonesa na Segunda Guerra Mundial. Findada a Segunda Guerra em 1945, quatro anos depois triunfa a revolução chinesa liderada por Mao Tse-Tung.

O Tibete e a revolução socialista

Sob a liderança de Mao, o exército comunista estava muito fortalecido. Sabendo disso, os EUA aumentam sua intervenção no Tibete em 1947, quando então Mao Tse-Tung envia para lá uma coluna do exército vermelho liderada por um certo general chamado Deng Xiaoping. O Tibete, que através do 13º Dalai-Lama reconheceu ser um território chinês, assina com a China em 1951 um acordo de libertação pacífica, o que lhe dá o status de minoria étnica que goza de autonomia, bem como o direito de liberdade de crença.

Eis então um fato jamais dito pela grande mídia: o Sr. Tenzin Gyatso, o 14º Dalai-Lama, participou da primeira legislatura da Assembléia Nacional Popular da China, que elaborou a Constituição da República Popular, vindo a ser eleito um dos vice-presidentes do comitê permanente da Assembléia. Dando continuidade a suas atividades, o 14º Dalai-Lama tornou-se presidente do comitê provisório encarregado de organizar a região autônoma do Tibete, estando as relações entre China e Tibete normalizadas.

Entretanto, a normalidade deu lugar à tensão quando foi elaborado um projeto de reforma democrática para o Tibete, na qual a religião seria separada do Estado, a servidão rural e a escravidão doméstica seriam abolidas e as terras, monopolizadas pela aristocracia civil e pelos mosteiros, seriam redistribuídas. Estando o Dalai-Lama envolto de forças anti-chinesas e separatistas tibetanos, coube a facção pró-ocidental, já patrocinada pela CIA, retomar a ofensiva sobre a China.

Com a fundação da organização política “Quatro rios e seis montanhas” e o patrocínio da CIA, em 1956 é deflagrado um ataque a funcionários e prédios públicos tibetanos e obras de infra-estrutura. Tibetanos defensores das reformas iniciadas pela China também seriam alvos. Em 1959, mais precisamente no dia 17 de março, o Dalai-Lama se exila em Dharamsala e a facção pró-ocidental de Lhasa tenta, manu militari, retomar o Tibete, com a China restabelecendo a ordem 72 horas depois. Recorda-se que em direito internacional é lícito recorrer ao direito de guerra somente em caso de defesa.

A partir do momento em que a China controla o Tibete, as reformas democráticas mudam o cenário social. Em 1990, o governador do Tibete seria, obrigatoriamente, da etnia tibetana e não da etnia han, como era anteriormente, assim como 70% dos funcionários públicos. Entretanto, o homem da paz da grande mídia diz haver um genocídio cultural no Tibete. Pouco importa, pois lá foi introduzido o bilingüismo, fala-se o mandarim e o tibetano, com preferência para este último. A construção da ferrovia que liga Pequim a Lhasa deu novo fôlego econômico à região, a mais pobre do país. No plano da preservação da tradição religiosa, há 46 mil monges e monjas (cerca de 2% da população), acesso livre a imagens sagradas e 1.700 mosteiros em atividade. Retomou-se a tradição dos festivais religiosos e iniciou-se a publicação de escrituras sagradas budistas, algumas inéditas. A epopéia tibetana do Rei Gasar, tradicionalmente oral, está sendo publicada em vários idiomas.

No campo social propriamente dito, o fim da teocracia escravista deu lugar à redução de 90 para menos de 20% do número de analfabetos, conforme estatística de 2005. Ainda é preciso erradicar o analfabetismo, mas já melhorou muito o indicador. Até 1950, não existiam escolas públicas de primeiro ou segundo grau, atualmente há mais de 3000. Há também uma universidade e três grandes centros de pesquisas. As mulheres ocupam cerca de 20% do funcionalismo público e 28% das vagas na universidade, enquanto na época da teocracia escravista a participação feminina na sociedade era praticamente nula. Por fim, a expectativa de vida aumentou de 35 anos em 1950 para 65 anos em 1990. Dados e fatos apresentados, pergunta-se: o que a grande mídia e o próprio Dalai-Lama chamam de opressão?

Cai o mito do homem da paz!

A poucos meses do início dos jogos olímpicos de Pequim, a grande mídia noticia intensamente uma rebelião de tibetanos contra o governo chinês. Pasmem! Os defensores da paz e da serenidade, injustiçados por um governo central, se valendo do corre-corre para conseguirem seus objetivos, dentre os quais poder restabelecer algum dia a teocracia escravista da qual tanto têm saudade.

Tamanha é a serenidade e a vocação pacífica do Dalai-Lama, serenidade esta que o permitiu fazer vista grossa ao financiamento da Sociedade americana por uma Ásia livre, braço da CIA, na década de 50, organizada pelo seu irmão Thutban Norbu. Ou então, a mesma serenidade e vocação pacífica que também o fez não dar importância à célula da CIA estabelecida em 1951, no Tibete, por seu irmão Gyalo Thondup.

Monges “injustiçados” que receberam 1,7 milhão de dólares anuais da CIA na década de 60. Dessa quantia, 180 mil dólares pagos diretamente ao sereno e pacífico Dalai-Lama! Ajuda vigente até 1974.

A obtenção de um visto de entrada nos EUA na administração Carter rende ao pacifista da grande mídia novos colaboradores no congresso estadunidense em prol da sua causa. Talvez todas essas colaborações justificam o fato do Dalai-Lama ter ganhado o Prêmio Nobel da Paz de 1989, defendendo o direito da Índia dispor de bombas nucleares.

Atualmente, o sereno pacifista da grande mídia recebe a ajuda financeira de outro braço da CIA, a National Endowment for Democracy (Dotação Nacional para a Democracia), órgão criado na administração Reagan em 1984 que subsidia ações de interesse dos EUA mundo afora, como por exemplo as que derrubaram os governos da ex-Iugoslávia, em 2002, Geórgia, em 2004 e Ucrânia, em 2005. Agora sabemos como são financiadas e lançadas no mercado editorial as obras pacifistas do Dalai-Lama.

Por fim, não bastasse ter vencido o Prêmio Nobel da Paz em 1989, o Dalai-Lama, foi condecorado com a Medalha de Ouro do Congresso dos EUA pelo presidente George Walker Bush, a maior condecoração civil que alguém pode receber nos EUA. Ao ser condecorado, disse que ainda era muito cedo para dizer se a guerra no Iraque foi um erro ou não.


Frente e verso da medalha recebida pelo Dalai Lama

Dados, fatos e fotos, nos resta questionar o conceito de paz a nós atribuído pela grande mídia, bem como pesquisar a fundo quais são os personagens que ela nos intitula pacíficos, cabendo, após esse exame, decidirmos ou não se continuaremos filiados aos conceitos da grande mídia e por quê. Talvez não seja uma máxima absoluta que “as aparências enganam”, mas podem enganar. Muitos pacifistas da grande mídia não passam, na verdade, de lobos fantasiados de cordeiros.


Dalai-Lama exibe à imprensa a honraria
recebida do congresso estadunidense,
ao lado do presidente dos EUA, George W. Bush... que coisa, não?


Lucas Rafael Chianello, além da grande mídia.