quarta-feira, 14 de maio de 2008

LIÇÕES DO REFERENDO AUTÔNOMO

Como já foi dito em artigos anteriores neste blog, a Bolívia é um país que tenta existir. A luta por sua existência passa por uma análise que a grande mídia não se dará ao dever de informar aos seus leitores, pois tratar dessa visão diferenciada e histórica não interessa aos anunciantes comerciais, sustentáculos da desinformação.

Não existe regras elencadas em artigos sobre como se dá um processo de elaboração de uma Constituição. Por esta ser a lei maior que venha a representar a vontade de um povo de um país, deve nascer de uma assembléia constituinte, na qual o povo, de acordo com sua vontade, edificará juridicamente o Estado e seus objetivos, que, por uma razão óbvia, devem contemplar os anseios populares.

Ao ser julgado pelo assalto ao Quartel de Moncada, Fidel Castro, em sua defesa, foi sábio juridicamente ao argumentar que ao contrário do que requeria a acusação não houve agressão a um poder constitucional do Estado cubano naquela época, pois “legítima é a constituição que emana diretamente da soberania popular”. Eis umas das palavras pronunciadas por Fidel Castro em sua defesa, haja vista ele ser advogado.

Tanto de acordo com a concepção de mundo dos seus editores como de seus anunciantes, para a grande mídia o grande culpado pela agenda separatista que tem pautado a Bolívia nas últimas semanas é o Presidente Evo Morales, um índio insolente que nacionalizou o gás e permitiu à sua população elaborar uma nova Constituição que somente entrará em vigor se for aprovada mediante o sufrágio universal. Entretanto, quando vimos os meios de comunicação noticiarem que a elaboração do Estatuto Autônomo do Departamento de Santa Cruz é legítima por preencher seus requisitos jurídicos?

Mais uma vez, cai a máscara da grande mídia, que revela toda a sua parcialidade escondida no mito da imparcialidade. Seu lema é: “à direita, presunção de veracidade, à esquerda, presunção de sabotagem”. Não houve em nenhum telejornal ou na imprensa escrita qualquer imagem de cidadãos bolivianos mostrando para as câmeras de emissoras internacionais cédulas de votação do Estatuto Autônomo de Santa Cruz já preenchidas com o SIM antes de serem depositadas nas urnas. Talvez seja por isso que o índice de aprovação do Estatuto Autônomo tenha atingido 85%, enquanto a abstenção chegou a 35 pontos percentuais.

Além do flagrante desta lamentável atitude, pergunta-se: qual assembléia constituinte elaborou e deliberou pela votação do Estatuto Autônomo? Se nenhuma assembléia o fez, não existe legitimidade popular e política para o Estatuto ser válido para as pessoas.

Ao julgarmos os fatos políticos, precisamos da maior compreensão histórica possível, ainda mais se tratando de outros países, por uma questão de respeito. Se aprendermos história e política com a grande mídia, além de estarmos fadados ao desrespeito com os outros países, estaremos repetindo argumentos mercadológicos e conservadores, sequazes do status quo, enquanto devemos estar ao lado dos transformadores sociais.

EM TEMPO

Pouco tempo após a finalização deste artigo, foi noticiado que o Presidente Evo Morales aceitou a convocação de um referendo revogatório do seu mandato e dos governadores dos departamentos. Seu argumento é de que a resolução dos problemas da Bolívia deve se dar pelas urnas e não pelas armas. Nunca um homem branco foi tão civilizado e pacífico como este índio.

EM TEMPO II

A fonte de onde teríamos as fotos de bolivianos mostrando cédulas fraudadas não está disponível na fonte de pesquisa. Assim que estiver, será disponibilizada.

Lucas Rafael Chianello, além da grande mídia.

5 comentários:

  1. Pouco instrutivo teu texto, eihn Luquinha?
    Amei =)
    Li todinho, reli o que não consegui compreender direito, e acho que finalmente o entendi por completo.
    Ahn, bom , é isso ..
    Adoro você, querido!

    Um grande beijo, de alguém que te admira muito e que está do teu lado INCONDICIONALMENTE, pro que der e vier.

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  2. Em 23/05/08


    Senhor Chianello:

    Como o senhor, eu também tenho ascendência italiana e, talvez, pela coincidência, possamos nos entender a contento.

    Li o seu comentário sobre o referendo cuja efeméride se deve apenas a um índio “insolente”: EVO MORALES presidente daquele país irmão, a Bolívia. Ora, é lógico que a encoberto das notícias podemos lobrigar muito claramente o “jogo de interesses” que Morales vai vencendo com galhardia e posso arriscar, até mesmo, com patriotismo, alicerçado em seu destemor em usar de suas prerrogativas como nativo e conhecedor dos verdadeiros e urgentes problemas bolivianos, que devem ser atacados por medidas como a de nacionalizar o gás. Aqui, um governo crápula deu de “bandeja” a Vale do Rio Doce, hoje descaracterizada pelo simples nome “VALE” que faz jus ao novo logotipo, que é bem feito. Digo isto por ser desenhista e pintor, além de – como registrou o meu amigo Hudson –, escritor. Esforço-me, para ter o direito de chegar a ser um que valha a pena ler, espelhando-me a ele.

    Em um comentário anterior, me reportando ao do Sr.Luis Bilbao sob o título “NA BOLÍVIA SE JOGA O FUTURO”, eu perguntava se será bom ao Estado boliviano à separação de mais outros dois departamentos, além de Santa Cruz de La Sierra. Diz V.Sa. que as câmeras das emissoras internacionais mostravam ao mundo o duvidoso pleito naquele departamento com cédulas previamente escritas SIM antes de serem depositadas nas urnas. Ora, isto além de ser “imoral” é “inconstitucional”, por estar fraudado. Esse “sonho” de se separar do Estado Central já aconteceu por aqui. V.Sa. deve lembrar do desejo de autonomia de dois ou três estados ao sul de nosso país, um deles o estado do RIO GRANDE DO SUL, um dos ricos e progressistas estados da União. Em que poderia implicar isso se fosse realizado o desmembramento? Podemos bem avaliar. Será o desmembramento de Santa Cruz de La Sierra, e de mais outros dois, (o primeiro é o mais rico e progressista) parte do plano de uma “CUNHA DE INFLUÊNCIA ALIENÍGENA”? Há comentários sobre a introdução nos países da América Latina desse plano com os fins precípuos de desestabilizar as políticas em práticas nesses países irmãos propensos a se libertarem da “MANOPLA GANANCIOSA” das poderosas nações do Primeiro Mundo. Acredito piamente que sim.

    Fidel Castro tinha razão profética. Para “profetizar”, não é necessário ser SANTO; basta ter visão política e sensibilidade cívica, além da preocupação abrangente sobre o que pode uma Revolução em uma ilha acarretar aos demais países vizinhos. Ele não adivinhou que isto poderia acontecer a longo prazo. Sabia-o de antemão. Um felino não dá o primeiro bote a sua presa, na pressa de caçá-lo e devorá-lo. Assim agem as nações que detêm os poderes econômicos e bélicos: esperam pacientemente o momento propício (uma desestabilização interna provocada pelos insucessos de um governo) e dão o “pulo” do felino esperto. Eles têm estrutura (CIA) para saber o momento correto de intervir em determinado país, mas antes vão fazendo um trabalho sub-reptício nos “PORÕES” onde se homiziam os insatisfeitos nativos – aqueles que estão “APTOS” a lhes servirem como dóceis “ESBIRROS”.

    Voltando a Fidel, ele disse sabiamente no transcorrer da brilhante autodefesa diante do Tribunal, numa sala de um hospital: ...”descalços, seminus, e subnutridos”... “É esse o caminho para se tornar grande uma Nação”? (falava das crianças cubanas e sobre o guajiro) “Somente a morte pode libertá-los”. E a isso, sim, o Estado os ajuda – a morrer. E quanto aos “meios” a serem adquiridos, dizia ele: “Quando houver um fim à DISPERSÃO DOS FUNDOS PÚBLICOS, QUANDO AS AUTORIDADES DEIXAREM DE RECEBER PROPINAS DAS GRANDES COMPANHIAS QUE DEVEM IMPOSTOS AO ESTADO [...] ai então, haverá dinheiro mais do que suficiente.” Dá-se isso hoje em um país que nós conhecemos muito bem. Abraços.

    Morani

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  3. Parabéns, Lucas, por tentar explicar alguns aspectos do ilegal referendo feito pelo grupo reacionário que administra Santa Cruz. Como vc demonstra, tratou-se de uma consulta na qual os que redigiram o Estatuto (quatro pessoas), foram os mesmos que convocaram o referendo, confeccionaram as cédulas, fizeram a seguança dos locais de votação e apuraram os votos! A Corte Eleitoral nacional havia considerado o referendo nulo de direito, a OEA, a União Européia e todos os governos (todos, até os EUA, que apóiam o separatismo) negaram-se a mandar observadores. Fabricaram 85% de votos no universo de 50% que compareceu às urnas, ou seja, seriam 42,5% dos eleitores. Tudo precedido pela mais violenta campanha de mídia, e violência física contra os defensores da nova Constituição e do governo Morales. Mas, é claro que nossa mídia cartelizada e golpista mostrou tudo diferente. Para quem viu a Globo, por exemplo, parecia que houve uma eleição democrática na Bolívia, que o governo perdeu, e que Evo Morales ecusava-se a reconhecer os resultados! Pura ficção!
    Isso é o que chamamos de terrorismo midiático, tipo de crime que a mídia latino-americana comete todos os dias.
    Estive na Bolívia algumas vezes nos últimos dois anos, preparando meu livro \"A Bolívia de Evo Morales - dois anos de refundação\", a ser lançado na Bienal de SP (perdoem a propaganda...). Terá prefácio do Zé Dirceu, que conhece bem Evo, e as relações Brasil-Bolívia. Vamos tentar desmistificar um pouco o tema, que os brasileiros, que se baseiam no noticiário, estão longe de conhecer.

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  4. antonio barbosa filho9 de agosto de 2008 08:39

    No dia 23, sábado, estarei lançando o livro "A Bolívia de Evo Morales - a refundação de um país", com prefácio de José Dirceu e apresentação do autor por Audálio Dantas. Será no estande da LivroPronto Editora, Rua "M", com Av. 6, na Bienal Internacional do Livro de SP. Convido a todos os que desejam uma América Latina integrada e soberana.
    E agradeço pelo espaço neste blog democrático. Abraços.

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  5. è meu caro!!! Sempre com artigos coerentes!!! Tratando de assuntos que muitas vezes estão ocultos, pois para a classe dominante não é interessante que mostrem o lado da esquerda!!! afinal vamos privatizar, vamos alugar o Brasil e dar lugar p gringos entrarem!!!!rsrsrs è Lucas vc vai longe!!! Continue sempre com sede de saber!!! pois não basta ter conhecimento se não tiver sabedoria!!!
    Abraços Mariza

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