quinta-feira, 11 de setembro de 2008

LIÇÕES DE “ONZES” DE SETEMBRO

Hoje é 11 de setembro. Com certeza os jornais da imprensa falada e escrita mostrarão imagens e matérias sobre o dia em que o maior império da história da humanidade levou, talvez, o seu maior “tapa na cara”. Era mais um dia comum até dois aviões chocaram-se contra as torres gêmeas do World Trade Center e no mesmo dia Osama bin Laden ser acusado de mandante do atentado. Impressionante como em poucas horas um culpado já foi apontado.

Entretanto, 11 de setembro não rememora somente às torrês gêmeas. Neste mesmo dia, há 35 anos, o mesmo país que sofreu o maior atentado da sua história aplicaria um covarde golpe de Estado contra o primeiro estadista marxista do Cone Sul, Salvador Allende, eleito democraticamente em 1970 e que, se estivesse vivo, estaria completando seu centenário.


Salvador Allende, presidente do Chlie entre 1970-73.

Uma boa indicação para o leitor é o livro da pesquisadora chilena Patrícia Verdugo: “Chile, 1973, como os EUA derrubaram Allende”. Neste livro está contido de forma bem detalhada o resultado de uma árdua pesquisa, nos seus mínimos detalhes, de como os EUA arquitetaram e financiaram um dos mais covardes golpes de Estado do Século XX. Para o leitor ter uma idéia, Patrícia Verdugo relata que os EUA consideravam o governo de Allende mais “perigoso” do que a Revolução Cubana liderada por Fidel Castro.

Formado em medicina, Allende aos poucos descobrira o par perfeito que faria com o socialismo desde quando começou a exercer a profissão. Preocupado com a saúde dos menos favorecidos, Allende não se conformava somente em diagnosticar e receitar. Quando seus pacientes não tinham dinheiro para comprar os remédios, ele mesmo os comprava.

Deixando os detalhes para o momento oportuno, o fato é que na política Allende tinha uma obsessão: a união dos partidos de esquerda em torno de um só objetivo. Dessa união nasceria a Unidade Popular, o pilar que sustentaria Allende no poder até que fosse executado o golpe de Estado que culminou em 17 anos de ditadura no Chile. A importância da Unidade Popular seria conduzir um processo político que instalasse no país um governo socialista de forma democrática.

Infelizmente, assim como no Brasil em 1964, o Chile foi mergulhado num período de trevas através de uma ditadura financiada pelos atuais invasores do Iraque, que justificaram golpes de Estado não só no Chile presidido por Allende e no Brasil presidido por João Goulart, mas em todo o Cone Sul, sob o signo do anti-comunismo. Curioso ressaltar que na ditadura cruel e sangrenta de Pinochet, muitos dos seus opositores, clamando por democracia, foram fuzilados no Estádio Nacional, mesmo local onde a seleção brasileira no último domingo venceu o Chile por 3x0 pelas eliminatórias da Copa do Mundo de 2010.

Enfim, 11 de setembro guarda semelhança peculiar com o ano de 1968: é dotado de grandes lições e reflexões políticas (cada um nas suas devidas proporções). Porém, enquanto imagens de um atentado até hoje não muito bem explicado estarão sendo veiculadas na TV e nos jornais para que fiquemos com pena dos invasores do Iraque e do Afeganistão, com certeza a grande mídia, neste dia de hoje, se furtará de dar destaque ao covarde golpe de Estado ocorrido no Chile em 1973. E assim estaremos tendenciosos a continuarmos com pena daqueles que hoje proporcionam o maior “estado de paz” no Iraque e no Afeganistão em resposta ao tal atentado. E ainda somos obrigados a aprender a hilariante piada: “a grande mídia atualmente é grande fonte de informações do cidadão”.

Lucas Rafael Chianello, além da grande mídia.