domingo, 1 de fevereiro de 2009

A DISPUTA PELOS RECURSOS FINANCEIROS ESTATAIS

O que aconteceu com o famoso mercado onipotente?
Quando o mercado teve a dor de barriga,
que não foi uma dor de barrigazinha,
foi uma diarréia daquelas, si-fu, insuportável...
Quando o mercado teve essa diarréia,
quem é que eles chamaram para salvá-los?
O Estado, que eles negaram durante 20 anos.
Luiz Inácio Lula da Silva

As palavras do presidente Lula explicam a essência do processo histórico vivido pelo mundo após a queda do Muro de Berlim. A opção política consistente em eliminar a política, a não intervenção na economia e a delegação à iniciativa privada da prestação dos serviços necessários para a sobrevivência humana e bem estar social levou o mundo a ter 2/3 de seus habitantes vivendo abaixo da linha da pobreza. Não obstante, os próprios defensores deste modelo econômico levaram à falência seu próprio projeto. Admitiram na edição deste ano do Fórum Econômico Mundial em Davos, Suíça, que concluíram não saber nada. Trágico num primeiro momento, cômico no segundo.

Torna-se necessária por parte dos governantes o estabelecimento de prioridades, vindo à tona a dialética entre injetar os recursos financeiros do Estado na salvação do mercado ou nos investimentos sociais. Para os defensores da segunda opção, a primeira é assistencialismo populista que governantes tarados pelo poder encontram como modo de terem os votos das classes sociais menos favorecidas.

A Alemanha se encontra destacadamente no epicentro desta discussão, pois a partir dela se deu a ascenção do neoliberalismo em 1989 com o fim do bloco socialista liderado pela URSS. O país, unificado, convivia então com dois modelos econômicos diametralmente opostos, quando então o modelo econômico atual se sobrepôs ao da Alemanha Oriental. Veio então a crise e as bilionárias reservas financeiras estatais construídas ao longo dos últimos anos pela não aplicação do dinheiro do contribuinte em investimentos sociais e de infra-estrutura começaram a ser reivindicas pelas grandes corporações. Nas palavras de Martin Wansleben, diretor executivo da Confederação Alemã das Câmaras de Indústria e Comércio (DIHK), "Não acho que tenhamos motivo agora para sermos pessimistas. O que me preocupa é muito mais a incapacidade de ação na política, o que mostra que o governo fica muito aquém daquilo que agora seria necessário que ele fizesse".

Vivemos um momento de grande oportunidade de discussão acerca da aplicação dos recursos financeiros do Estado. É claro que a produção não pode parar, pois os trabalhadores são os primeiros a sentirem os efeitos da crise, afinal, ao diminuir a produção, torna-se necessário comprar menos a mão-de-obra (trabalho assalariado), culminando na demissão de funcionários. Porém, por que a ajuda financeira do Estado ao invés de se diminuir o lucro de acionistas e manter o exército de produção? Por que demitem sob o argumento de cortar gastos com salários de trabalhadores mas não diminuem os astronômicos salários dos executivos?

Para manterem a margem de lucro e não diminuir os salários dos executivos, as grandes corporações se socorrem agora das bilionárias reservas estatais para se salvarem da crise que seus próprios agentes criaram. Enquanto isso, nenhum centavo dessas reservas são aplicados em implantação de rede de água e esgoto, programas de habitação, segurança alimentar, vestuário, educação, etc.

Em tempos de crise, a sociedade civil organizada não pode fingir que nada está acontecendo e acreditar nas palavras de que "esse papo de crise é balela". Por sua vez, a sociedade civil desorganizada e despolitizada deve se dar ao luxo do inconformismo, se organizar e se politizar, pois sua pressão pela aplicação dos recursos estatais advindos do contribuinte é a única ferramenta eficiente contra o lobby daqueles que hoje se socorrem daquele que, nas palavras de Lula, negaram pelos últimos 20 anos.

Lucas Rafael Chianello, além da grande mídia.

2 comentários:

  1. Fabricio Augusto Damazio1 de fevereiro de 2009 21:27

    Pefeito!
    Empresto umas palavras minhas para resumir tudo:

    "Quando esperavam que a mão invisível do mercado consertasse tudo, descobriram que o mercado é maneta."

    Fabricio Augusto Damazio

    ResponderExcluir
  2. Excelente!!!!
    Sintetisou tudo, mostrando o outro lado desta situação que a mídia insiste em ocultar.
    Abraços

    ResponderExcluir

Instruções para comentários:

1 - serão removidos pelo moderador aqueles que não estiverem relacionados com o conteúdo da postagem e/ ou conter palavras de baixo calão ou inapropriadas;

2 - para publicar seu comentário, você pode fazê-lo usando sua conta do google. CASO NÃO TIVER A CONTA DO GOOGLE OU PREFERIR NÃO USÁ-LA, escolha a opção Nome/URL e deixe a opção URL em branco que não haverá nenhum problema.