sábado, 15 de agosto de 2009

NOS ATAQUES E CONTRA-ATAQUES, A RECORD TEM TODA RAZÃO

Na semana passada, a Rede Globo veiculou uma reportagem, de aproximadamente 10 minutos, no Jornal Nacional, noticiando detalhes de uma investigação do Ministério Público paulista contra o Bispo Edir Macedo, proprietário da Rede Record de televisão, que por sua vez respondeu à altura, no dia seguinte, no Jornal da Record, tratando de denunciar como a maior emissora de TV do Brasil nasceu sob os auspícios da ilegalidade, a partir de favores para com o regime militar.

Para maiores detalhes, basta procurar na rede mundial de computadores o documentário Além do Cidadão Kane, que demonstra clara e fidedignamente a suja trajetória histórica da Globo, desde seu surgimento até os dias atuais. Tal documentário já foi tema de postagem no início das atividades do blogue, inclusive. Ainda sim, não custa lembrar que nele é demonstrado o modus operandi fraudulento da Globo nas eleições para o governo do Rio de Janeiro em 1982, assim como é demonstrada toda a manipulação contra Lula, atual presidente do Brasil, nas eleições de 1989.

Todo arcabouço de chantagens, pilantragens, manipulações e ofensas à legalidade, por parte da Globo, não podem, porém, servir como desculpa para uma análise maniqueísta sobre o assunto, ainda que a Record tenha razão neste episódio. Afinal, trata-se de uma emissora que, armada pelo patrocínio dizimista e teocrata, responde à altura da sua rival buscando tão somente a liderança de audiência e a hegemonia dos meios de comunicação do país.

Ressalte-se que após contra-atacar a Rede Globo, a Record iniciou uma reportagem mostrando como são revertidos em projetos sociais o dízimo arrecadado dos fiéis da Igreja Universal. Além de se defender das acusações globais, configura-se a tentativa de se atrair fiéis, passando-se a imagem da boa aplicação do dízimo. E a exemplo da Globo, usando da prerrogativa de um meio de comunicação que deveria noticiar fatos e nada mais.

Por outro lado, faz bem a Record em questionar como a Globo teve acesso aos autos do processo de investigação sobe Edir Macedo. Noticia-se, como sempre, as coisas de forma que dão a entender que o bispo pentecostal é um criminoso irrecuperável. Ora, estamos num país democrático de direito. Enquanto não houver uma sentença penal da qual não caiba mais recurso, ele é inocente. Faz-se necessário alguém avisar a Globo que o regime político por ela defendido, que tratava todo cidadão como suspeito e torturava os que se opunham a ele, acabou faz muito tempo. Por isso não é estranho a Globo usar de sua atividade para condenar sumariamente os seus concorrentes.

Finalmente, o presente episódio é um grande estímulo para que mais uma vez se questione, conclua e sejam tomadas providências no sentido de se promover na sociedade civil brasileira um debate esclarecedor sobre o papel dos meios de comunicação no Brasil. Perguntas como a quais interesses eles servem e de quem são esses interesses, qual espaço tem a população nos meios de comunicação e como se dá a comunicação nas comunidades, dentre outras, seriam bem vindas.

Lucas Rafael Chianello, além da grande mídia.

EM TEMPO: ruim e tendenciosa (óbvio que teria esta última característica) a entrevista exibida no Repórter Record, deste último domingo, com Edir Macedo. Prometeu-se algo bombástico que não passou do uso da emissora com a finalidade de defesa do líder da igreja universal.

EM TEMPO II: suspeita-se que o promotor de justiça Roberto Porto, que ofereceu a denúncia contra Edir Macedo, foi, outrora, afastado do GAECO (Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado) por ter fornecido à Globo a gravação de uma entrevista dele com Fernandinho Beira-Mar. Também suspeita-se que a juíza da 9ª Vara Criminal de São Paulo, receptora das denúncias contra Macedo, tinha relações afetivas com o promotor. Fato é que ela afastou-se do cargo e o novo magistrado responsável pelo caso acatou as denúncias.

EM TEMPO III: segundo Arthur Lavigne, advogado de Edir Macedo, as denúncias contra seu cliente foram arquivadas, em 1999, pelo Supremo Tribunal Federal, a pedido da Procuradoria Geral da República.

quinta-feira, 13 de agosto de 2009

A VERSÃO POÇOSCALDENSE DO CHOQUE DE GESTÃO

Durante os anos da administração federal de FHC, o Brasil, impulsionado pela hegemonia do neoliberalismo, deflagrou sua agenda de privatizações. Ao ser questionado da coerência com seu passado intelectual, baseado num pensamento político de esquerda, o então presidente tucano disse: “esqueçam o que eu escrevi”. Entretanto, seu governo nada mais foi do que um instrumento para que ele colocasse em prática as teorias por si formuladas.

O sociólogo Emir Sader, este sim intelectual de esquerda, demonstra claramente como o então Presidente da República pelo PSDB deflagrou a “privataria” através de sua teoria. Segundo ele, para FHC, a burguesia brasileira exerceu seu jugo sobre a classe trabalhadora diferentemente da burguesia industrial européia. Essa diferença residia no fato de que enquanto a brasileira o fazia por meio de empresas públicas, a européia o fazia através da iniciativa privada. E como para FHC as empresas públicas brasileiras eram controladas por políticos burocratas que usufruíam delas em seu próprio benefício, a solução para tal problema era... privatizá-las! Ora, desde quando isso é um pensamento político de esquerda? Tal análise pode ser encontrada na magnífica coleção de ensaios de Emir Sader intitulada “O poder, cadê o poder?”, da Editora Boitempo.

Eis que então, ao terminar o seu governo com baixa aprovação da população, FHC passou a faixa presidencial para Lula. Num país democrático pluripartidarista, ao mesmo tempo em que temos um petista na presidência da república, temos peessedebistas em diversos governos estaduais, especialmente em Minas Gerais, São Paulo e Rio Grande do Sul, estados onde os seus governantes renovaram a agenda de privatização iniciada por FHC, sob o signo da expressão “choque de gestão”. Diga-se de passagem, o Ministério Público Federal pediu o afastamento da governadora gaúcha, Yeda Crusius.

Sob o signo daquela expressão opera a atual administração da Prefeitura Municipal de Poços de Caldas, cuja base de sustentação política é formada, principalmente, pelo PPS, DEM e PSDB, os mesmos partidos que, inconformados com o programa anti-privatista do governo federal, lideram, junto aos grandes meios de comunicação do país, a mais sórdida oposição ao Governo Lula.

Justificam os privatistas, dentre outros truques retóricos, que o Estado, seja a nível municipal, estadual ou nacional, é oneroso e ineficiente, motivo pelo qual deve se cortar, na maior medida possível, gastos com pessoal. Tem-se, neste argumento, a razão do ridículo aumento salarial proposto pela atual administração aos servidores públicos. Não o bastante, recentemente o Prefeito Municipal expediu um decreto, visando limitar os empenhos do orçamento municipal deste ano.

Todavia, ao mesmo tempo em que a atual administração tenta passar sua imagem de cautela com as finanças públicas, oriundas do bolso do cidadão pagador de impostos, são despendidos gastos estrondosos, porém insignificantes, a partir de tal arrecadação, deixando à míngua, inclusive, a população menos favorecida, maior usuária da estrutura pública.

Ao custo de um Departamento Municipal de Eletricidade em frangalhos, de uma “micareta” carnavalesca (lembram-se?), servidores públicos municipais mal pagos, uma nova Câmara Municipal orçada em R$ 12 milhões e instituições públicas municipais funcionando de forma precária, a atual administração liberou uma verba de R$ 9.000,00 para o pagamento do cachê da cantora Gretchen, que dará seu ar da graça na parada gay que será realizada no próximo final de semana. Ora, ao passo em que os servidores públicos são funcionários do município, a cantora foi contratada para produzir um show. Mas seja qual for a finalidade do pagamento, trata-se de gasto com pessoal, algo condenado pela tríade PSDB-DEM-PPS e sua idéia de choque de gestão.

Até para quem optou se relacionar afetivamente com pessoas do mesmo sexo, os direitos de associação e reunião são legítimos, estão na Constituição Federal. São líquidos e certos, não se discutem. Entretanto, a versão poçoscaldense do choque de gestão não é nada mais do que isso: a falta de zelo pela estrutura pública e a preguiça de promover o bem estar social, em nome do pão e circo. Ou talvez, só do circo.

Lucas Rafael Chianello, além da grande mídia.

Para saber mais sobre o "choque de gestão":

segunda-feira, 3 de agosto de 2009

SUGESTÃO DE LEITURA

TÍTULO: O capitão Lamarca e a VPR - Repressão Judicial no Brasil
AUTORA: Wilma Antunes Maciel

Após o golpe de 31 de Março de 1964 e a outorga da então Lei de Segurança Nacional, a ditadura, através da Justiça Militar, institucionalizou a tortura como meio de obtenção de informações para se deflagrar a perseguição àqueles que optaram pela luta armada contra o regime.


Em sua dissertação de mestrado, a historiadora Wilma Antunes Maciel demonstra como os militares transgrediam as próprias leis por eles decretadas, o que culminou em aviltar e depor contra as garantias fundamentais de todos os cidadãos brasileiros, que passaram a ser tratados como suspeitos.

Também são analisadas pela autora as opções políticas feitas pela Vanguarda Popular Revolucionária, dissidência do Partido Comunista Brasileiro, liderada pelo Capitão Carlos Lamarca.

Com base nos processos judiciais sofridos pelos membros da organização, arquivados no projeto Brasil, Nunca Mais, tornam-se evidentes as barbaridades cometidas ao longo do regime.

"A tortura tinha como objetivo inicial a busca de informações no menor espaço de tempo possível, mas também cumpriu um papel político de intimidação social. E mais, foi o elemento básico para a "legalidade" representada pela Justiça Militar, pois as confissões obtidas sob tortura na fase policial, eram formalizadas nos processos para o oferecimento da denúncia pelo Ministério Público, e ainda serviam de prova para as condenações".

O capitão Lamarca e a VPR - Repressão judicial no Brasil, é um registro histórico de um período marcado, juridicamente, pela agressão e ausência de proteção aos mais sagrados direitos humanos e políticos do cidadão brasileiro.

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Lucas Rafael Chianello, além da grande mídia.