terça-feira, 19 de janeiro de 2010

O CHILE NOS ENSINA

"Kennedy determinou então que a CIA e outras agências respaldassem a campanha de Eduardo Frei Montalva, do Partido Democrata-Cristão (PDC), que anunciava a intenção de realizar reformas sociais, sob o lema de "revolução em liberdade", e defendia o estabelecimento de laços estreitos com os Estados Unidos, disposto a aceitar as regras e o programa da Aliança para o Progresso.

(...) Na medida em que Eduardo Frei não representava ameaça aos interesses americanos, econômicos ou políticos, e apresentava um programa de reformas nos termos da Aliança para o Progresso, ele correspondia aos padrões de líder que John F. Kennedy buscava na América Latina, com o perfil de reformista, para contrapor-se ao modelo revolucionário de Fidel Castro".

Trecho do livro Fórmula Para o Caos, de Luiz Alberto Moniz Bandeira.

Com o golpe de Estado executado no dia 11 de setembro de 1973, iniciou-se no Chile a sórdida ditadura do General Augusto Pinochet, findada em 1990. A partir deste ano, uma aliança política denominada Concertación passou a governar o país. Porém, no último dia 17 de janeiro, os eleitores chilenos foram às urnas e elegeram o multimilionário Sebástian Piñera o novo presidente do país. Seu adversário pela Concertación foi Eduardo Frei Ruiz-Tagle, filho de Eduardo Frei Montalva, o mesmo que recebera enorme incentivo financeiro dos EUA para derrotar o socialista Salvador Allende nas eleições de 1964.

Do ponto de vista histórico e da esquerda, o eleitorado chileno encontrava-se entre a cruz e a espada no último domingo. O voto "menos pior" era em Eduardo Frei Ruiz-Tagle, filho de um presidente eleito com incentivos financeiros da CIA que lutou contra Allende até a última gota de sangue, em desfavor de um candidato (Sebastián Piñera) que provavelmente nomeará para cargos de confiança diversos quadros políticos ligados à ditadura Pinochet.

Dentre ambos, a escolha da esquerda era Eduardo Frei, somente e nada mais, em razão do neopinochetismo de Piñera, pois mesmo com o Partido Socialista de Allende integrando a Concertación, este já não é mais o mesmo da intencionada transição chilena ao socialismo através da democracia.

Eduardo Frei filho foi presidente do Chile de 1994 a 2000 e a exemplo dos demais governos da Concertación, na verdade não exerceu um papel político digno de ser reconhecido como de esquerda. Apesar da entrada do Chile no Mercosul, diversos acordos bilaterais foram celebrados com os EUA e outros países. Num todo, a Concertación não foi capaz de superar o modelo econômico herdado da própria ditadura pinochetista, deixando de delegar ao Estado maior participação no plenejamento econômico de forma que isso culminasse na promoção de maior justiça social. Em suma, apesar da simbólica eleição de Michelle Bachelet, primeira mulher presidente do país, os sucessivos governos da Concertación deixaram a desejar.

Para muitos, com toda a razão, a ligação entre Piñera e quadros da ditadura pinochetista pesa mais do que tudo, mesmo que Eduardo Frei pai tivesse derrotado Allende com incentivos da CIA. Fora isso, não há o que a esquerda lamentar, tendo em vista o programa político executado pela Concertacíon, que poderia e tinha a obrigação de convocar uma Assembléia Constituinte com a finalidade de virar a página da ditadura Pinochet de uma vez por todas e fazer da participação popular um instrumento de mudança do mapa social chileno.

Paradoxalmente, o fracasso da Concertación implica num imenso retrocesso histórico e político para o Chile, que não conseguiu eleger o sucessor de um governo que possuía 80% de aprovação da população. E a menos de um ano das eleições em terras tupiniquins não cabe lição maior do que essa, pois se no Chile de Allende o retrocesso já foi enorme, uma eventual sucessão direitista de um governo com mais de 70% de aprovação seria um desastre de dimensões continentais ainda maiores, se levarmos em conta a liderança mundial que o Brasil de Lula exerce atualmente nas relações internacionais.

Lucas Rafael Chianello, além da grande mídia.

2 comentários:

  1. Companheiro Chianello
    Fico me perguntando até onde realmente houve uma 'derrota' da esquerda na eleição chilena de domingo. Pois se houve avanços no campo político, como o fim da ditadura pinochetista e a apuração de crimes cometidos por aquele regime de terror, no plano social e econômico o Chile durante as décadas de 1990 e 2000 pôs em prática a Revolução Neoliberal – expressão de István Mészáros – tanto quanto o Brasil de FFHH, a Argentina de Menem ou o Peru de Fujimori. Portanto, comparar os governos da Concertción com os demais governos democrático-populares que hoje dominam o subcontinente sul-americano é forçar a barra demais. Assim como fazer analogias entre o que ocorreu na recente eleição chilena e o que pode vir a ocorrer no Brasil na eleição de outubro, é prematuro e só serve a direita tupiniquim.

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  2. Hudson, ou não te entendi ou estamos batendo cabeça:

    Em suma, apesar da simbólica eleição de Michelle Bachelet, primeira mulher presidente do país, os sucessivos governos da Concertación deixaram a desejar.

    Fora isso, não há o que a esquerda lamentar, tendo em vista o programa político executado pela Concertacíon, que poderia e tinha a obrigação de convocar uma Assembléia Constituinte com a finalidade de virar a página da ditadura Pinochet de uma vez por todas e fazer da participação popular um instrumento de mudança do mapa social chileno.

    Aqui eu escrevi que a Concertación falhou em não ter convocado uma Assembléia Constituinte que permitisse ao povo chileno escolher seu modelo econômico.

    E a menos de um ano das eleições em terras tupiniquins não cabe lição maior do que essa, pois se no Chile de Allende o retrocesso já foi enorme, uma eventual sucessão direitista de um governo com mais de 70% de aprovação seria um desastre de dimensões continentais ainda maiores, se levarmos em conta a liderança mundial que o Brasil de Lula exerce atualmente nas relações internacionais.

    Abramos nossos olhos. Piñera no Chile, Micheletti em Honduras, Uribe na Colômbia, Alan Garcia no Peru. Há uma resistência, ou até mesmo uma ofensiva de direita na América Latina. Por isso temos que trabalhar até o fim e não permitir a volta do PSDB de jeito nenhum.

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