domingo, 18 de setembro de 2011

OS VERDADEIROS PROPÓSITOS DA INVASÃO À LÍBIA

Se é que esteve mesmo durante 41 anos no poder, Kadafi proporcionou ao povo líbio os maiores benefícios sociais possíveis. Através de sua liderança, a mulher obteve toda a possibilidade de participar da sociedade, 95 % dos desertos foram irrigados e, dentre outros, recentemente Kadafi obteve o reconhecimento do atual presidente da África do Sul, Jakob Zuma, em ter contribuído com a luta contra o apartheid, regime de segregação racial então vigente no país sede da última Copa do Mundo. Em suma, o argumento de que Kadafi deve cair a qualquer custo por estar a 41 anos no poder é totalmente simplista. É um argumento pragmático, de impacto matemático, que esconde os principais propósitos das potências ocidentais em plena crise econômica com suas contas públicas.

Desertos irrigados significam um acesso extremamente mais fácil à água, este recurso natural sagrado à existência humana que aos poucos, ou em escala cada vez maior, se torna de acesso cada vez mais difícil em razão da indiferença ambiental praticada por aqueles que... que hoje invadem a Líbia! As mesmas potências endividadas que destroem o mundo e ao invés de pagarem a conta, buscam novas fontes de combustíveis fósseis para manterem seus parques industriais funcionando (a Líbia é a sétima maior reserva de petróleo do mundo, só pra constar).

Na Líbia não há respeito aos direitos humanos pelas potências ocidentais endividadas que bombardeiam cidades e lugares reduzidos à condição análoga de colinas ocas. O petróleo líbio, que hoje tem suas divisas investidas em benefícios sociais que fazem do teu povo o usufrutuário do maior IDH da África, a partir de agora será utilizado na reconstrução ocidental do país.

Quanto ao Conselho Nacional de Transição, não passa de um bando de vendidos. É muito fácil desempenhar o papel de rebeldes insurretos com US$ 5 bilhões de dólares iniciais para começar a governar a Líbia. Não há qualquer vestígio de soberania ou autodeterminação dos povos, mas tão somente o financiamento das potências ocidentais endividadas em financiar um governo marionete que corrobore seus interesses.

Recentemente Kadafi questionou a que renunciaria, já que não desempenhava nenhuma função governamental na Líbia. Onde a grande mídia divulgou isto e com que veemencia? Se a questão fosse tão somente uma insatisfação com ele, bastaria o povo líbio resolver tal questão a partir de sua autodeterminação e soberania. O que na verdade ocorre no país é a invasão por potências ocidentais em crise econômica, com suas contas públicas endividadas, que veem na riqueza do país árabe norte-africano em evidência a cobertura dos rombos de seus déficits públicos, enquanto que o divulgado pela grande mídia ocidental e reacionária é a salvação de um povo através de bombardeios e assassinatos de inocentes.

Lucas Rafael Chianello, além da grande mídia.

Para saber mais sobre o que ocorre na Líbia:


sábado, 3 de setembro de 2011

PRA NÃO DIZER QUE NÃO FALEI DOS MONSTROS


Por Renata Winning
Pesquisadora de temas relacionados à psicologia pela PUC-SP,
Leitora do Além da Grande Mídia

A 4a Conferência de Políticas Públicas para Mulheres na cidade de São Paulo veio com tudo: aproximadamente 1500 mulheres colorindo de lilás o Expo Center Norte.

Após as mesas-redondas que discutiram políticas públicas para as paulistanas e, por vezes, recebeu calorosos aplausos, nos dividimos de acordo com eixos temáticos para discutir as propostas a serem encaminhadas à Conferência Estadual.

Dirigi-me então para “Enfrentamento de todas as formas de Violência Contra a Mulher”. Novamente fiquei deslumbrada em ver tantas mulheres comprometidas em analisar e criar propostas para o combate da violência contra a mulher. Falas contundentes, elucidativas e próximas à realidade de mulheres em situação de violência – militantes e trabalhadoras de órgãos e abrigos em defesa da mulher estavam presentes.

Apesar do som precário e de sermos muitas vozes, nada atrapalhou que ficássemos todas compenetradas em discutir as propostas e fazer as devidas modificações. O tom das discussões era respeitoso e de construção conjunta. Exercício de cidadania e comprovação de que é perfeita a parceria entre mulher e política.

Felizmente, depois de um prolongado debate, resoluções imprescindíveis foram pautadas, tais como: promover assistência integral e emergencial para mulheres em situação de violência (DDMs 24 horas e abertas nos finais de semana bem como os demais dispositivos que efetivam a Lei Maria da Penha); ampliar os serviços que prestam atendimento às mulheres em situação de violência; capacitar e contratar mais profissionais (de diversas áreas) para fazer o atendimento; realizar ampla campanha de prevenção e combate à violência de gênero etc.

Contudo, um assunto de suma importância foi minado das propostas criadas nas Pré-Conferências e praticamente linchado da discussão: tratamento aos agressores.
Vou me atrever a resgatar esse debate porque considero essa discussão polêmica – e constrangedora – inesgotada.

A retirada do atendimento aos agressores, como medida que compete à Coordenadoria da Mulher considerou a escassez de verbas e a prioridade em defender as questões relacionadas à mulher. Além disso, a prestação de serviços para esses homens poderia ser de responsabilidade de outra Coordenadoria. Assunto encerrado. Será?

Posso concordar com os argumentos colocados, mas acho necessário trazer o incômodo à tona mais e mais vezes: como são os serviços oferecidos para os agressores? Existe uma abordagem de gênero?

Estudos recentes foram atrás da resposta e descobriram que não. Dependendo do entendimento do que causa a agressão o serviço oferecido pode tratar de tudo, menos da violência de gênero. Exemplo: se o agressor for considerado com algum transtorno mental pode receber um tratamento medicamentoso ou se for considerado dependente químico pode fazer tratamento específico para o vício. Mas a violência tem gênero, não é isso?

Diante de tanta brutalidade é compreensível que enfatizemos a prisão e não se queira ouvir falar das especificidades dos agressores. Mas se esse debate não for feito por mulheres, que rumo vai tomar?

As medidas criminais são imprescindíveis, mas não suficientes. A maior parte dos processos contra os homens são abandonados. Questões como medo, dependência financeira e psicológica são apontadas como as possíveis razões para isso. Mesmo mudando as leis, capacitando os profissionais para o atendimento e oferecendo um auxílio à mulher (renda, casa de passagem, abrigo etc.), não se pode desconsiderar que as partes envolvidas não são seres genéricos. Têm história, sentimentos contraditórios e, possivelmente, um histórico de violência.

Sendo assim, se largarmos o debate sobre os agressores, considerando como uma questão fora da plataforma de luta podemos acabar com um tiro no pé. Permitiremos que se troque “O machismo mata” por “O álcool mata”? E se quem sofrer a violência for majoritariamente mulheres é...coincidência?Pessoa mais próxima?

Se o tratamento não tiver nada a ver com a causa que apontamos nada poderá ser re-significado. O ciclo de violência não será interrompido.

Se é verdade que a mulher tem potencial para a transformação como, por exemplo,  conscientizar-se sobre a sua condição e romper com a violência também devemos aceitar que o homem também tem chances de mudar. Se é verdade que o ser humano se constitui em relação então devemos aceitar a  possibilidade de re-significações a partir de um outro que ajude a pensar  as questões de gênero. Defendemos as propagandas anti-violência contra a mulher não apenas para serem vistas e mudar concepções de mulheres.

Por fim, se cristalizarmos o agressor no papel de monstro incurável também devemos aceitar que a mulher é uma vítima eternamente passiva. Não é nisso que acreditamos, certo?

Para combater os ideais da masculinidade hegemônica que ainda reinam no imaginário social, devemos percorrer muitos caminhos. Não são todos os homens que concordam e propagam a violência, mas aqueles que o fazem merecem ser combatidos, ou melhor, tratados.

Independentemente do órgão que se responsabilizar pelos atendimentos aos agressores uma coisa deve ficar clara: essa discussão também é nossa.