domingo, 4 de março de 2012

FIFA OU SOBERANIA

Quando externou a suposta preocupação da FIFA com o cronograma das obras para a Copa do Mundo de 2014, o Secretário Geral da entidade, Jérôme Valcke, disse que era necessário um chute no traseiro do Brasil para que as obras andassem mais rápido. Mais uma vez, torna-se evidente a arrogância da FIFA em querer um país disponível a ela durante o tempo de realização de uma Copa. Também escancarou-se como algumas pessoas do chamado "primeiro mundo" ainda tentam nos tratar.

A ingerência da FIFA é algo que merece todo o repúdio. Os defeitos e virtudes que caracterizam o Brasil são objetos de discussão e ajuste que possuem apenas um interessado: o povo brasileiro. Infelizmente, desde a descoberta pelos portugueses, o Brasil tem um problema crônico: a utilização da coisa pública para benefícios privados. Por isso a corrupção é cultural no Brasil, o que leva a um outro problema crônico: a legislação em causa própria.

Ao querer restringir o direito de greve em certos setores, a meia entrada de estudantes e idosos, bem como a liberação de bebida alcóolica nos estádios, dentre outras coisas, o objetivo da FIFA é que o Congresso legisle em sua causa, não com o objetivo de assegurar uma realização decente da Copa, mas simplesmente de afastar qualquer risco dos seus interesses lucrativos. Todavia, a FIFA deve e muito no cartório e por isso deveria pautar maiores preocupações que devem ser resolvidas no seu âmbito interno em detrimento de articulações legislativas com congressistas brasileiros.

Essencialmente, a FIFA é uma ditadura privada afastada quase que totalmente de qualquer controle público e transparente. Seus dois últimos presidentes se eternizaram no poder sem qualquer oposição: João Havelange por 24 anos, Joseph Blatter já há 14. Ameaças são distribuídas a clubes e jogadores que tentam pleitear seus direitos na Justiça Comum, pois distante de qualquer prestação de contas públicas, a FIFA somente aceita a resolução de controvérsias através de convenções de arbitragem. Há, nitidamente, um conflito entre um privatismo ludopédico que tenta impor a renúncia de soberania ao Brasil no que se refere a Copa do Mundo, seja no tocante às obras, seja no tocante à legislação. Nas palavras do grande sociólogo Emir Sader, tentam nos impor o rumo das obras da Copa da mesma maneira que o FMI tentava impor o rumo da nossa economia nos anos 90. Enquanto isso, Ricardo Teixeira, que é membro de órgãos internos da FIFA, lava dinheiro à vontade e nada é feito contra ele.

Nota 10 para Juca Kfouri. Podem estar criando uma situação para mandar a Copa para a Inglaterra ou salvar Ricardo Teixeira. Porém, nota zero para Kfouri, que diz se tratar de uma briga de gângsteres. Os aprendizes de Al Capone estão do lado de lá.

Nota 10 para Mauro Cézar Pereira, da ESPN Brasil. Jérôme Valcke tem uma visita agendada ao Brasil e suas palavras são motivos mais do que suficientes para que sua entrada no país seja impedida. Porém, nota zero para ele, ao dizer que a FIFA tem escolhido lugares com alto nível de corrupção para realizar seus eventos e então fugir mais ainda de qualquer controle. EUA, França e Alemanha são países bem mais corruptos que Brasil e África do Sul, são corruptos e corruptores a nível internacional. Sem dúvidas que estamos diante de um grande cronista esportivo, mas se ele ainda carrega consigo o infeliz complexo de vira latas, que guarde pra si.

Nota zero para o autor do artigo no que se refere a avaliar cronistas esportistas do calibre dos citados acima. Fora isso, cabe a você, leitora e leitor, dar a nota para este artigo, no que se refere ao assunto central.

Lucas Rafael Chianello, além da grande mídia.

Para saber mais sobre o conflito de interesses Brasil x FIFA: